Liderada pela Croplife, iniciativa reúne entidades representativas do setor, entre elas a Abrasem e a Apasem
O combate à pirataria de sementes é um tema recorrente no agronegócio e acaba de ganhar um novo capítulo, com a criação de uma coalisão nacional que reúne diferentes entidades representativas do setor – entre elas a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) – e que tem a liderança da CropLife. A Campanha de Boas Práticas Agrícolas é uma iniciativa para conscientizar produtores, trabalhadores, consumidores e outros atores da cadeia sobre o uso responsável das tecnologias agrícolas.
Entre as ações, o combate ao uso de insumos ilegais conta com abordagem estratégica em três pilares: comunicação, advocacy e enforcement. Em 2024, um estudo realizado pela CropLife Brasil junto à empresa Céleres Consultoria revelou que a pirataria de sementes de soja, por exemplo, gera prejuízos anuais de R$ 10 bilhões, afetando produtores, indústria, exportações e arrecadação tributária. Porém, a iniciativa engloba o combate à pirataria de sementes em geral e as ações estruturadas têm potencial de aplicação também para outras culturas.
Centralização dos esforços
É por meio do Comitê de Combate à Pirataria de Sementes da Abrasem que essa ação vem sendo discutida no setor. O grupo tem papel essencial dentro de uma associação que se destaca justamente por sua pluralidade e representatividade. “Nos últimos anos, vimos esforços importantes direcionados às grandes culturas, o que é natural, dado o impacto econômico que elas geram. No entanto, para quem atua com pesquisa, no desenvolvimento de sementes ou mesmo na produção final, é fundamental que o combate à pirataria e a valorização da pesquisa considerem todas as espécies e culturas”, diz o coordenador do comitê, Fernando Wagner.
Internamente, na Abrasem, o foco é alinhar as necessidades dos associados, ouvir os diferentes segmentos e buscar soluções que gerem impacto positivo em todo o ecossistema. Já externamente, trabalha-se para integrar esse movimento a outras iniciativas nacionais, como a Coalizão de Combate à Pirataria de Sementes — que reúne entidades como Abrasem, CropLife Brasil, Abrass, Apasem, entre outras entidades de renome no setor. O objetivo é evitar sobreposições e maximizar os resultados no combate à pirataria de sementes.
O trabalho do comitê é guiado por objetivos estratégicos bem definidos, como, por exemplo, o de construir uma base sólida de dados — concreta, confiável e representativa, que permita compreender o real tamanho do mercado informal em diferentes espécies.
Esses impactos, diz Fernando Wagner, são múltiplos. “Há prejuízos técnicos, que afetam a produtividade e a qualidade no campo. Há perdas diretas para a indústria de sementes e de germoplasma. E há, ainda, um impacto expressivo do ponto de vista socioeconômico: empregos que deixam de ser gerados, renda que não circula, evasão tributária e distorções de mercado que comprometem a sustentabilidade da cadeia como um todo”, explica.
O trabalho dos integrantes vai ainda mais a fundo, na certeza de que não se constrói um ecossistema forte com elos enfraquecidos. “Precisamos entender as razões pelas quais o agricultor recorre à semente salva ou à semente pirata — e, ao mesmo tempo, mostrar a importância de manter viva a cadeia de pesquisa, desenvolvimento e inovação”, destaca Wagner.
A campanha
A ideia é focar no alerta sobre os riscos do uso de insumos ilegais e fortalecer a percepção sobre os benefícios das sementes legais, com foco em qualidade, inovação e sustentabilidade – amparada a dados e cases. O objetivo é gerar sensibilização e conscientização ampla sobre os prejuízos econômicos e os riscos atrelados à pirataria de sementes.
“A comunicação da campanha foi estruturada considerando ações de grande alcance, como: parcerias e divulgação em mídias sociais, realização de coletiva de imprensa e produção de conteúdo em parceria com o Comitê Estratégico de Soja (CESB). Além disso, a CLB desenvolveu um canal de denúnciapara receber informações sobre produtos ilegais, sementes e defensivos agrícolas”, explica a diretora de biotecnologia e germoplasma na CropLife Brasil, Catharina Pires.
A CropLife Brasil, em parceria com a Céleres, divulgou recentemente um estudo demonstrando que 11% da área de soja cultivada no Brasil utiliza sementes piratas — isso representa cerca de 4 milhões de hectares, equiparando-se à área de Mato Grosso do Sul –, resultando em R$ 10 bilhões de prejuízo por ano. Na esteira da evasão financeira está ainda o risco deredução da produtividade média (perda estimada de 4 sacas/hectare); riscos fitossanitários, com disseminação de pragas e doenças; desestímulo à inovação, com menor investimento em pesquisa (estimativa de perda de R$ 1,2 bilhão em P&D em 10 anos); perda de arrecadação tributária, com impacto direto sobre a economia nacional e regional, além do comprometimento da imagem do agronegócio brasileiro e enfraquecimento da segurança jurídica no setor.
“Por isso, a campanha engloba o combate à pirataria de sementes em geral e as ações estruturadas (advocacy, enforcement e comunicação), que têm potencial de aplicação também paraoutras culturas. Embora o estudo divulgado pela Céleres tenha foco na soja, a coalizão de Combate à Pirataria de Sementes atua de forma abrangente”, destaca Catarina.
Na questão regulatória, a coalisão defende ainda que o uso de sementes piratas seja enquadrado como crime ambiental. “A defesa da criminalização da pirataria em campanha é uma estratégia que busca contribuir para o aumento da gravidade jurídica do ato, estabelecendo penas mais severas como um todo. Além disso, para além da criminalização, é preciso reconhecer que o uso de sementes ilegais pode disseminar pragas e doenças, comprometer a sanidade vegetal e afetar a sustentabilidade dos sistemas produtivos”, explica a gerente regulatório de Biotecnologia e Germoplasma da CLB, Danielle Costenaro.
Dessa forma, o aprimoramento regulatório traz maior proteção ao agronegócio brasileiro, sua competividade e preservação de imagem, “pois reforça a segurança jurídica no setor de sementes; inibe práticas ilegais com risco real de responsabilização criminal, bem como fortalece o ambiente de inovação e os investimentos em P&D”, exemplifica Danielle.
O que já foi desenvolvido na Coalisão
- Coletiva de imprensa com ampla repercussão, com exposição para quase 30 veículos de comunicação;
- Produção de conteúdo com o CESB, incluindo 18 materiais sobre sementes certificadas;
- Entrevistas concedidas para pautar o tema na imprensa nacional e regional;
- Ampliação da cobertura via rádio, releases e presença em 210 cidades;
- Reuniões de cunho institucional com autoridades governamentais das três esferas (federal, estadual e municipal), além de diálogo com forças policiais, como no Rio Grande do Sul.
Próximas ações
- Desenvolvimento de casos judiciais contra a pirataria;
- Engajamento de federações de agricultura, associações de sementes estaduais e cooperativas;
- Fortalecimento das ações de fiscalização;
- Aprimoramento das mensagens-chave e reforço das atividades de comunicação.
A experiência paranaense
A Associação Paranaense dos produtores de sementes e mudas (Apasem) é reconhecida no mercado por fomentar diferentes campanhas contra a pirataria de sementes ao longo da última década, trazendo resultados expressivos para o setor estadual. Agora a instituição faz adesão à coalisão por meio da Abrasem e procura levar sua expertise para que isso possa de alguma forma ser reverberado no âmbito nacional do setor.
“A experiência construída no Paraná, especialmente por meio das campanhas da Apasem, tem sido extremamente valiosa nesse contexto nacional. O Paraná é um exemplo de protagonismo técnico e institucional no agro, e foi lá que aprendemos a importância de compreender as peculiaridades regionais. Cada Estado tem suas dores e fortalezas: a realidade do Paraná é diferente da de Mato Grosso, da Bahia ou do Rio Grande do Sul, por exemplo”, diz o coordenador do Comitê de Combate à Pirataria de sementes na Abrasem, Fernando Wagner.
Ele ressalta que essa vivência mostra que é preciso escutar, mapear os atores relevantes — que podem ser associações, obtentores, multiplicadores ou mesmo órgãos públicos — e conectar esses pontos. “Essa articulação foi bem-sucedida no Paraná e certamente serve de inspiração para a construção de um movimento nacional. A contribuição da Apasem e de outras associações estaduais está sendo essencial na estruturação das novas frentes”, conclui.
Fonte: Revista APASEM/Everson Mizga









