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Coalisão contra pirataria de sementes é lançada no Brasil

Liderada pela Croplife, iniciativa reúne entidades representativas do setor, entre elas a Abrasem e a Apasem

O combate à pirataria de sementes é um tema recorrente no agronegócio e acaba de ganhar um novo capítulo, com a criação de uma coalisão nacional que reúne diferentes entidades representativas do setor – entre elas a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) – e que tem a liderança da CropLife. A Campanha de Boas Práticas Agrícolas é uma iniciativa para conscientizar produtores, trabalhadores, consumidores e outros atores da cadeia sobre o uso responsável das tecnologias agrícolas.

Entre as ações, o combate ao uso de insumos ilegais conta com abordagem estratégica em três pilares: comunicação, advocacy e enforcement. Em 2024, um estudo realizado pela CropLife Brasil junto à empresa Céleres Consultoria revelou que a pirataria de sementes de soja, por exemplo, gera prejuízos anuais de R$ 10 bilhões, afetando produtores, indústria, exportações e arrecadação tributária. Porém, a iniciativa engloba o combate à pirataria de sementes em geral e as ações estruturadas têm potencial de aplicação também para outras culturas.

Centralização dos esforços

É por meio do Comitê de Combate à Pirataria de Sementes da Abrasem que essa ação vem sendo discutida no setor. O grupo tem papel essencial dentro de uma associação que se destaca justamente por sua pluralidade e representatividade. “Nos últimos anos, vimos esforços importantes direcionados às grandes culturas, o que é natural, dado o impacto econômico que elas geram. No entanto, para quem atua com pesquisa, no desenvolvimento de sementes ou mesmo na produção final, é fundamental que o combate à pirataria e a valorização da pesquisa considerem todas as espécies e culturas”, diz o coordenador do comitê, Fernando Wagner.

Segundo o coordenador, o principal desafio dessa pauta hoje é promover uma sintonia entre diferentes realidades. “Buscamos entender o grau de impacto da pirataria em cada cultura, inclusive nas que tradicionalmente têm menos dados disponíveis. Nosso esforço atual está voltado para estruturar esse diagnóstico e, a partir disso, construir ações mais assertivas”, destaca.

Internamente, na Abrasem, o foco é alinhar as necessidades dos associados, ouvir os diferentes segmentos e buscar soluções que gerem impacto positivo em todo o ecossistema. Já externamente, trabalha-se para integrar esse movimento a outras iniciativas nacionais, como a Coalizão de Combate à Pirataria de Sementes — que reúne entidades como Abrasem, CropLife Brasil, Abrass, Apasem, entre outras entidades de renome no setor. O objetivo é evitar sobreposições e maximizar os resultados no combate à pirataria de sementes.

O trabalho do comitê é guiado por objetivos estratégicos bem definidos, como, por exemplo, o de construir uma base sólida de dados — concreta, confiável e representativa, que permita compreender o real tamanho do mercado informal em diferentes espécies.

Esses impactos, diz Fernando Wagner, são múltiplos. “Há prejuízos técnicos, que afetam a produtividade e a qualidade no campo. Há perdas diretas para a indústria de sementes e de germoplasma. E há, ainda, um impacto expressivo do ponto de vista socioeconômico: empregos que deixam de ser gerados, renda que não circula, evasão tributária e distorções de mercado que comprometem a sustentabilidade da cadeia como um todo”, explica.

O trabalho dos integrantes vai ainda mais a fundo, na certeza de que não se constrói um ecossistema forte com elos enfraquecidos. “Precisamos entender as razões pelas quais o agricultor recorre à semente salva ou à semente pirata — e, ao mesmo tempo, mostrar a importância de manter viva a cadeia de pesquisa, desenvolvimento e inovação”, destaca Wagner.

A campanha

A ideia é focar no alerta sobre os riscos do uso de insumos ilegais e fortalecer a percepção sobre os benefícios das sementes legais, com foco em qualidade, inovação e sustentabilidade – amparada a dados e cases. O objetivo é gerar sensibilização e conscientização ampla sobre os prejuízos econômicos e os riscos atrelados à pirataria de sementes.

“A comunicação da campanha foi estruturada considerando ações de grande alcance, como: parcerias e divulgação em mídias sociais, realização de coletiva de imprensa e produção de conteúdo em parceria com o Comitê Estratégico de Soja (CESB). Além disso, a CLB desenvolveu um canal de denúnciapara receber informações sobre produtos ilegais, sementes e defensivos agrícolas”, explica a diretora de biotecnologia e germoplasma na CropLife Brasil, Catharina Pires.

A CropLife Brasil, em parceria com a Céleres, divulgou recentemente um estudo demonstrando que 11% da área de soja cultivada no Brasil utiliza sementes piratas — isso representa cerca de 4 milhões de hectares, equiparando-se à área de Mato Grosso do Sul –, resultando em R$ 10 bilhões de prejuízo por ano. Na esteira da evasão financeira está ainda o risco deredução da produtividade média (perda estimada de 4 sacas/hectare); riscos fitossanitários, com disseminação de pragas e doenças; desestímulo à inovação, com menor investimento em pesquisa (estimativa de perda de R$ 1,2 bilhão em P&D em 10 anos); perda de arrecadação tributária, com impacto direto sobre a economia nacional e regional, além do comprometimento da imagem do agronegócio brasileiro e enfraquecimento da segurança jurídica no setor.

“Por isso, a campanha engloba o combate à pirataria de sementes em geral e as ações estruturadas (advocacy, enforcement e comunicação), que têm potencial de aplicação também paraoutras culturas. Embora o estudo divulgado pela Céleres tenha foco na soja, a coalizão de Combate à Pirataria de Sementes atua de forma abrangente”, destaca Catarina.

Na questão regulatória, a coalisão defende ainda que o uso de sementes piratas seja enquadrado como crime ambiental. “A defesa da criminalização da pirataria em campanha é uma estratégia que busca contribuir para o aumento da gravidade jurídica do ato, estabelecendo penas mais severas como um todo. Além disso, para além da criminalização, é preciso reconhecer que o uso de sementes ilegais pode disseminar pragas e doenças, comprometer a sanidade vegetal e afetar a sustentabilidade dos sistemas produtivos”, explica a gerente regulatório de Biotecnologia e Germoplasma da CLB, Danielle Costenaro.

Dessa forma, o aprimoramento regulatório traz maior proteção ao agronegócio brasileiro, sua competividade e preservação de imagem, “pois reforça a segurança jurídica no setor de sementes; inibe práticas ilegais com risco real de responsabilização criminal, bem como fortalece o ambiente de inovação e os investimentos em P&D”, exemplifica Danielle.

O que já foi desenvolvido na Coalisão

  • Coletiva de imprensa com ampla repercussão, com exposição para quase 30 veículos de comunicação;
  • Produção de conteúdo com o CESB, incluindo 18 materiais sobre sementes certificadas;
  • Entrevistas concedidas para pautar o tema na imprensa nacional e regional;
  • Ampliação da cobertura via rádio, releases e presença em 210 cidades;
  • Reuniões de cunho institucional com autoridades governamentais das três esferas (federal, estadual e municipal), além de diálogo com forças policiais, como no Rio Grande do Sul.

Próximas ações

  • Desenvolvimento de casos judiciais contra a pirataria;
  • Engajamento de federações de agricultura, associações de sementes estaduais e cooperativas;
  • Fortalecimento das ações de fiscalização;
  • Aprimoramento das mensagens-chave e reforço das atividades de comunicação.

A experiência paranaense

A Associação Paranaense dos produtores de sementes e mudas (Apasem) é reconhecida no mercado por fomentar diferentes campanhas contra a pirataria de sementes ao longo da última década, trazendo resultados expressivos para o setor estadual. Agora a instituição faz adesão à coalisão por meio da Abrasem e procura levar sua expertise para que isso possa de alguma forma ser reverberado no âmbito nacional do setor.

“A experiência construída no Paraná, especialmente por meio das campanhas da Apasem, tem sido extremamente valiosa nesse contexto nacional. O Paraná é um exemplo de protagonismo técnico e institucional no agro, e foi lá que aprendemos a importância de compreender as peculiaridades regionais. Cada Estado tem suas dores e fortalezas: a realidade do Paraná é diferente da de Mato Grosso, da Bahia ou do Rio Grande do Sul, por exemplo”, diz o coordenador do Comitê de Combate à Pirataria de sementes na Abrasem, Fernando Wagner.

Ele ressalta que essa vivência mostra que é preciso escutar, mapear os atores relevantes — que podem ser associações, obtentores, multiplicadores ou mesmo órgãos públicos — e conectar esses pontos. “Essa articulação foi bem-sucedida no Paraná e certamente serve de inspiração para a construção de um movimento nacional. A contribuição da Apasem e de outras associações estaduais está sendo essencial na estruturação das novas frentes”, conclui.

Fonte: Revista APASEM/Everson Mizga

SEMENTES - Foto_ Fabiola Dias _ Adapec

Atualização de novas regras traz vantagens para laboratórios e produtores

As novas Regras de Análises de Sementes (RAS) implantadas em 2025 proporcionam vantagens tanto para os laboratórios quanto para os produtores, pois são métodos oficiais de análise de sementes referência para laboratórios credenciados para a elaboração dos Boletins de Análise de Sementes e, posteriormente, dos certificados ou termos de conformidade.

Muitos ganhos, conforme especialistas ouvidos pela Revista da Apasem, são consequências do aprimoramento na redação dos capítulos, que se tornaram mais claros e mais objetivos. Ou seja, a facilidade para a interpretação é um ponto crucial, impactando diretamente a padronização e a aplicação das metodologias por parte dos laboratórios. “As metodologias, de maneira geral, não foram alteradas, e sim o texto e a forma como estão apresentadas. E isso facilitou o entendimento dos laboratórios e analistas”, sinaliza Saionara Tesser, responsável técnica pelo Laboratório de Análise de Sementes (LAS) da Apasem em Toledo.

A atualização das RAS aconteceu no primeiro semestre deste ano, após a reivindicação do segmento para que a padronização acompanhasse a evolução da produção de sementes. A versão anterior era de 2009. O processo que culminou nas novas RAS contou com a participação de laboratórios oficiais e uma consulta pública por meio das Comissões de Sementes e Mudas. “Essa participação da comunidade foi uma enorme conquista”, acrescenta Saionara.

Segundo o Ministério da Agricultura, as novas RAS continuam com seu alinhamento perante as Regras Internacionais de Análise de Sementes da International Seed Testing Association (ISTA) e da Association of Official Seed Analysts, mas com respeito às particularidades da agricultura tropical e à legislação atual sobre sementes no país.

“O alinhamento das RAS 2025 com as Regras Internacionais da ISTA traz inúmeros benefícios como, por exemplo, a harmonização das metodologias nacionais com os métodos internacionalmente aceitos. Isso facilita a inserção das sementes brasileiras no mercado global, ampliando oportunidades comerciais e fortalecendo a reputação do Brasil quanto à qualidade das sementes produzidas. Outro aspecto positivo relevante é o acesso às ferramentas de apoio e metodologias disponibilizadas pela ISTA, agora integradas às RAS, oferecendo maior segurança e eficiência aos usuários”, afirma a consultora em análise de semente Myriam Alvisi, importante especialista do setor.

Ela reforça que a atualização das RAS atende plenamente às demandas atuais do setor sementeiro e dos laboratórios de sementes. “As mudanças promovem melhoria significativa na padronização das práticas laboratoriais, aumentando a confiabilidade, a exatidão e a reprodutibilidade dos resultados analíticos”, considera.

Uma das novidades na versão 2025 foi a melhor interface com os usuários, com a disponibilização das RAS na plataforma WikiSDA, o que possibilita atualizações mais rápidas, eliminando a dependência da publicação formal de portarias para oficialização das revisões dos métodos. “Essa atualização das RAS vai abrir possibilidades para novas revisões, com maior periodicidade. Assim, existirá um acompanhamento real entre o que acontece no setor e o que está colocado no instrumento normativo”, classifica Maria de Fátima Zorato, consultora em qualidade de sementes e outra referência dessa área.

Facilidade ainda implica comprometimento

Saionara Tesser, da Apasem, entende que os ganhos vindos com as novas RAS serão realmente sentidos na prática se os laboratórios e os analistas também estiverem comprometidos com a atualização. “Não adianta mudar se as equipes dos laboratórios não fizerem a consulta diária das regras de análise. Não adianta ter um material tão importante se ele não for consultado e tiver uma leitura bem feita, com os profissionais seguindo as regras ali descritas. Isso é o que vai fazer diferença. Caso contrário, os laboratórios não estarão atendendo o mercado e às regras do Ministério da Agricultura”, comenta.

Sementes florestais e misturas de sementes

Entre as principais novidades na atualização das RAS está a introdução dos capítulos de misturas de sementes e de espécies florestais nas RAS, o que não existia na versão de 2009. Além disso, a inclusão de um capítulo específico dedicado à análise de misturas de sementes repercute bastante no setor sementeiro.

Para Myriam Alvisi, isso representa um avanço significativo para atender às demandas crescentes desse tipo de comercialização. “Essa padronização garante a correta identificação dos lotes comercializados, promove segurança jurídica e técnica tanto para produtores quanto para consumidores finais, evita prejuízos econômicos decorrentes de inconsistências analíticas e fortalece a confiança nas transações comerciais envolvendo lotes de misturas”, indica.

Fonte: Revista Apasem/Joyce Carvalho Foto: Fabiola Dias/Adapec

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Instituto Pensar Agronegócio apoia e fortalece o setor em diferentes frentes

O agronegócio brasileiro alcançou os resultados globais que possui por meio de forte mobilização e cooperação técnica. Um exemplo disso é a atuação do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), uma organização sem fins lucrativos criada por uma série de entidades da agricultura e pecuária, de toda cadeia produtiva nacional, para auxiliar na articulação e na proteção dos interesses desses segmentos, incluindo a assessoria direta, com informações, embasamento técnico e estudos, para a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), no Congresso Nacional. Assim, agendas, debates e questões que afetam o setor e as pautas que são levantadas pelo próprio agronegócio possuem um respaldo mais robusto.


Trata-se de estratégia e, desta forma, fortalecer a participação do agronegócio nas decisões públicas. O IPA se consolidou como um importante polo de produção de conhecimento técnico e de articulação política em defesa do setor agropecuário brasileiro.

“O Instituto Pensar Agro tem sido essencial para que a Frente Parlamentar da Agropecuária atue com base em dados confiáveis e análises técnicas qualificadas. Hoje, o IPA nos apoia em temas como o aprimoramento das políticas de crédito e seguro rural, o acompanhamento de pautas ambientais e climáticas, além da avaliação de impactos de propostas tributárias e regulatórias. Esse suporte técnico garante que nossas pautas no Congresso e junto ao governo estejam sempre embasadas em informações atualizadas e bem fundamentadas”, comenta o deputado federal Pedro Lupion (PP), da bancada paranaense e presidente da FPA.

Já são 14 anos de atuação, com uma série de conquistas neste período. Desafios importantes já foram superados com estudos técnicos e atuação conjunta das associações e federações ligadas ao agronegócio, mas as demandas se renovam e, por isso, a mobilização em torno e por meio do IPA segue como uma das iniciativas de sucesso que englobam o papel de facilitador entre produtores, governos e instituições, sendo um espaço para diálogo com consistência,  além de embasamento técnico para decisões e negociações.

A missão de garantir a fluidez neste trabalho está, desde fevereiro deste ano, com a superintendente do Sistema OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), Tania Zanella. Ela é a presidente do IPA até 2027 e, com isso, tem o papel de trabalhar por uma eficiente articulação entre as 59 associações e entidades ligadas ao agronegócio brasileiro que compõem o instituto. Entre elas estão a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) e a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP).

“O IPA evoluiu significativamente na sua capacidade de reunir especialistas, entidades representativas e formuladores de políticas públicas em torno de pautas estratégicas para o desenvolvimento sustentável do agro. Entre os principais avanços, destacam-se a elaboração de estudos que subsidiaram importantes marcos legais, como o Código Florestal, a Nova Lei dos Agrotóxicos, o Licenciamento Ambiental e a Reforma Tributária com olhar para o setor”, afirma Tania Zanella, em entrevista para a Revista da Apasem.

O dinamismo nos desafios e demandas também é destacado pela presidente do Instituto. De acordo com ela, a agenda regulatória ambiental, os entraves logísticos, a insegurança jurídica e a crescente necessidade de fortalecer a imagem do agro perante a sociedade são temas constantes para o IPA. “Ainda assim, o instituto tem respondido com responsabilidade técnica e diálogo permanente com o Congresso Nacional, sempre em parceria com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). O grande mérito do IPA tem sido justamente sua capacidade de reunir múltiplos atores em torno de soluções viáveis e tecnicamente fundamentadas para o setor”, salienta.

Pedro Lupion, em entrevista à Revista da Apasem, também reforçou a evolução do IPA, de forma constante e estratégica, tornando-se um pilar técnico da atuação parlamentar em defesa do agronegócio. Para o deputado federal, isso permitiu avanços em áreas como legislação ambiental, política agrícola e comércio internacional. “Hoje, a FPA conta com um braço técnico sólido que nos permite atuar com ainda mais eficiência, assertividade e visão de futuro na defesa do produtor rural e do desenvolvimento do setor”, opina.

Imagem do agronegócio

Se os desafios são constantes, como, então, direcionar os esforços para melhores resultados? Para Tania Zanella, isso passa pelo fortalecimento da imagem do agronegócio como um todo e a necessidade de mostrar que o segmento vai além da sua relevância econômica. Os papéis social, ambiental e estratégico para o país devem ser trabalhados cada vez mais pelo IPA, com esforços para que o agro seja cada vez mais compreendido e valorizado pela sociedade e pelas novas gerações.

“Esse direcionamento tem permeado todas as frentes do IPA: desde os estudos técnicos voltados à sustentabilidade e à inovação no campo, até o fortalecimento da atuação institucional junto ao Congresso Nacional e à imprensa. Estamos empenhados em promover uma agenda propositiva, baseada em evidências e aberta ao diálogo com diferentes segmentos da sociedade”, afirma.

O IPA tem focado em uma agenda que alia competitividade, sustentabilidade e inovação. De acordo com a presidente do instituto, os estudos atuais tratam de temas como transição energética no campo, pagamento por serviços ambientais, mercado de carbono, segurança jurídica para a produção agropecuária, modernização do licenciamento ambiental e governança fundiária. Isso acontece paralelamente aos acompanhamentos de novidades e debates colocados por governos, além da tramitação de projetos e discussões nas diferentes esferas do poder público. Estão sendo acompanhadas de perto, por exemplo, as discussões sobre políticas públicas de crédito rural, seguro agrícola e conectividade no campo.

Participação ativa faz diferença

A atuação do Instituto Pensar Agronegócio (IPA) pode ser acompanhada por toda a cadeia por meio dos canais oficiais da própria entidade e da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA), onde as pautas são divulgadas para a sociedade como um todo. “O IPA representa a força da união do setor produtivo em torno de objetivos comuns. A participação ativa de diversas entidades traz uma riqueza de informações, experiências e propostas que fortalece a nossa atuação política. Essa construção coletiva garante uma visão ampla e plural do agronegócio, permitindo que nossas pautas avancem de forma mais sólida, estratégica e representativa diante dos desafios nacionais e internacionais”, enfatiza o deputado Pedro Lupion.

A Abrasem é uma das 59 entidades do agronegócio que fazem parte do IPA. “O instituto é fundamental na organização do agronegócio nacional”, classifica o presidente executivo da Associação Brasileira de Sementes e Mudas, Ronaldo Troncha. Ele relembra que a criação da Frente Parlamentar da Agropecuária partiu da antiga bancada ruralista no Congresso Nacional e a movimentação por uma articulação e representação política organizada motivou o surgimento do IPA. “As instituições ligadas ao agronegócio começaram a entender a necessidade de fornecer o apoio técnico aos parlamentares, fazendo com que matérias relevantes sobre legislação, questões jurídicas e discussões junto ao Executivo tivessem o apoio do conhecimento técnico dessas associações”.

Desta forma, o IPA auxilia na preparação e apoio para projetos de leis e debates mais ligados aos temas específicos de cada associação que integra seu quadro, além de assuntos nacionais que impactam o agronegócio como um todo, incluindo Reforma Tributária, licenciamento ambiental e Código Florestal Brasileiro. “Aliás, esse foi um dos grandes temas discutidos e uma das grandes conquistas do IPA”, indica.

De acordo com Troncha, leis como a de proteção de cultivares e de patentes também tiveram o auxílio, em suas articulações e resultados, de representantes ligados ao agronegócio como um todo. “Um dos temas para o setor de sementes que está sendo relevante e estamos discutindo exatamente nesse momento em uma das comissões do IPA é justamente a questão da alteração, ou seja, da modernização da lei de proteção de cultivares. Estamos fazendo várias reuniões com vários setores do agronegócio, que estão ali representados dentro do IPA. Todos os tipos de sementes e mudas estão envolvidos nesta legislação, e isso inclui o trabalho conjunto com outras associações, além da Abrasem”, revela.

A comissão de Defesa Agropecuária do IPA vem concentrando esses debates neste ano e os integrantes debatem a possibilidade de melhoria da legislação como um todo, inclusive visando aumentar o fomento e investimentos em pesquisas e melhoramento genético como um todo.

O Sistema FAEP – Federação da Agricultura do Estado do Paraná – participa ativamente do IPA desde a criação da entidade, em 2011, por meio da elaboração de estudos técnicos e da atuação nos grupos de trabalho, o que inclui temas como relações fundiárias, relações trabalhistas e relações institucionais e governamentais.

Exemplos paranaenses e pautas capitaneadas por aqui também são levados para o IPA, segundo o presidente interino no Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. A visão sobre o Código Florestal Brasileiro e mudanças em legislações referentes a licenciamento ambiental foram temas de mobilizações no Paraná que repercutiram nacionalmente, por meio, inclusive, da participação da FAEP nas articulações e atividades do Instituto Pensar Agronegócio.

“As entidades que fazem parte do IPA colocam seus papéis e as importâncias que têm relacionadas aos temas dentro da Associação. Por isso, existe esse papel de protagonismo, com atuação dentro dessa importante entidade que representa toda a agropecuária e que exerce esse ponto importante para a bancada no Congresso Nacional”, avalia.

A própria federação paranaense contribui com muitos estudos técnicos, que são usados para basear negociações e articulações, com impacto direto na defesa ativa dos interesses da agropecuária estadual e nacional. A expertise do departamento técnico da FAEP também é ressaltada por Ágide Eduardo Meneguette. “Na IPA, trabalhamos em conjunto para achar as melhores soluções, juntamente com os corpos técnicos das entidades, subsidiando os parlamentares da melhor forma e, assim, atendendo os anseios do setor”, disse.

GREENING 04 - Foto Roberto Dziura Jr - AEN

Paraná tem papel crucial no combate ao greening em todo o país

Iniciativas adotadas no Estado transformam-se em exemplos para outras regiões. Operação Big Citros faz parte das medidas tomadas frente à situação de emergência fitossanitária para combate ao greening

Operação Big Citros. Pode parecer até nome de filme. Mas, na vida real, representa um esforço conjunto que se tornou exemplo do Paraná para o país. Trata-se de uma força-tarefa, capitaneada pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), para combate ao avanço do greening, doença que tem a capacidade de inviabilizar a citricultura. A estratégia visa dar mais capilaridade, chegando até os produtores de diferentes regiões, e assim analisar o estágio do avanço nos pomares comerciais e em propriedades rurais e urbanas com frutas para consumo familiar. Isso permite a adoção de medidas de prevenção e manejo de maneira mais rápida e efetiva.

A operação segue as legislações federal e estadual vigentes na área. O Paraná tem um decreto, com validade até o final do ano, que determina a situação de emergência fitossanitária para combate ao greening. Em julho de 2025, o Ministério da Agricultura atualizou o Programa Nacional de Prevenção e Controle ao Greening, que é a principal doença que afeta a citricultura. Foram alterados critérios e procedimentos para a manutenção ou instituição de status fitossanitários, assim como medidas de prevenção e controle.

“A Operação Big Citros consiste na concentração de servidores da Adapar em uma determinada região, por um determinado período, para fiscalizar as propriedades comerciais. A ideia é fazer uma verdadeira varredura para, assim, adotar as medidas necessárias para o controle, o que inclui a erradicação de plantas hospedeiras”, explica Caroline Garbuio, chefe da divisão de sanidade da citricultura da Adapar.

O greening apareceu no Paraná em 2022, primeiramente na região noroeste. Em 2025, a doença chegou à citricultura do Vale do Ribeira. Nas cidades de Cerro Azul e Doutor Ulysses, há uma forte dependência econômica na produção das poncãs, cujo cultivo acontece essencialmente em propriedades familiares. Técnicos da Adapar e das secretarias municipais de Agricultura e Abastecimento já estão engajados para orientar e tomar as medidas preventivas necessárias.

Segundo Caroline, um grande case dentro da Operação Big Citros aconteceu em Paranavaí, onde a prefeitura municipal se engajou, juntamente com equipes técnicas de diferentes órgãos, para fazer com que esse trabalho de prevenção seja permanente. Paranavaí é o principal polo da citricultura paranaense.

“É necessário muito apoio, inclusive da iniciativa privada, e junção de esforços para que os pomares se mantenham saudáveis. A partir do trabalho da Adapar e da força-tarefa, a prefeitura também tem condição de caminhar sozinha nessa mesma direção, ainda mais naqueles pomares para consumo próprio. Quando se faz poda de árvores nas ruas, por exemplo, já se verifica a situação dentro nas residências, para conter o avanço do greening também dessa forma”, comenta.

A própria demanda e preocupação do setor vinham impulsionando ações isoladas, que passaram a ser coordenadas dentro da Operação Big Citros. Rafael Warmling, presidente da Associação dos Citricultores do Paraná (Acipar), salienta que os produtores estão contratando equipes próprias para fazer a erradicação de pés onde a doença está instalada. E reforça a preocupação com as plantas fora dos pomares comerciais. “Dentro dos pomares comerciais, os produtores vêm, conforme vão aparecendo os sintomas do greening, erradicando essas plantas e as substituindo por mudas sadias e certificadas”, conta.

Para Elisangeles Souza, técnica do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, a responsabilidade do combate ao greening também é da população em geral, que precisa estar sensibilizada, principalmente quanto à erradicação de plantas que estejam infectadas pela bactéria causadora da doença. “Isso também está relacionado à compra de mudas saudáveis, de produtores certificados e que garantam a procedência. Esse cuidado vale tanto para produtores comerciais quanto para pequenas propriedades, ou onde há cultivo nas próprias residências. As mudas nunca devem ser compradas de vendedores ambulantes, pois não há segurança de que elas sejam saudáveis. Existe todo um procedimento para produzir mudas de cítricos e toda a atenção deve ser redobrada”, esclarece.

A Operação Big Citros e demais iniciativas no Paraná estão sendo reconhecidas nacionalmente. Em 2025, técnicos, fiscais e agrônomos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul acompanharam os trabalhos feitos pelo Adapar e pelo IDR-Paraná. O objetivo foi obter conhecimento para auxiliar no combate ao greening nos outros Estados da Região Sul. E, desssa maneira, aumentar a rede de apoio e de vigilância.

O que é o greening?

O greening ou HLB (Huanglongbing) é uma doença que afeta a citricultura, causando a redução na produção e até mesmo queda prematura dos frutos e a morte precoce das plantas. Os frutos ficam com formato de pêra, tamanho reduzido, acidez elevada e menor teor de açúcares. Isso diminui o valor de venda do produto, impactando o consumo in natura ou para o uso industrial.

Como a doença é transmitida?

O greening é causado pela bactéria Candidatus Liberibacter, que chega até os pomares por meio do psilídeo Diaphorina citri. Entre as medidas preventivas estão a aplicação de inseticidas e a adoção de um sistema biológico de manejo, que consiste em soltar Tamarixia radiata. Trata-se de uma vespa inimiga natural do psilídeo. A ação pode ser feita em pomares e também em áreas onde há plantas de murta, espécie ornamental que é uma das principais hospedeiras do psilídeo. O combate ainda inclui a erradicação de plantas doentes. A medida pode abranger ainda as plantas doentes que estejam em um raio de quatro quilômetros de propriedades comerciais.

Importância da citricultura no Paraná

Segundo dados do Valor Bruto da Produção (VBP), do Departamento de Economia Rural (Deral), referentes ao ano de 2023, os principais citros produzidos no Paraná são laranja, tangerina e limão, cultivados em cerca de 29,3 mil hectares. O Estado é o terceiro maior produtor de citros, sendo a mais representativa dentro de toda a fruticultura paranaense. A produção de citros chegou a quase 861 mil toneladas naquele ano, gerando um rendimento de quase R$ 1 bilhão.

Revista APASEM por Joyce Carvalho Foto: Roberto Dziura Jr./AEN

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Um paranaense na liderança da Abrasem

A Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) tem um paranaense como presidente na gestão 2025-2028. Trata-se de Paulo Pinto de Oliveira Filho, agropecuarista e engenheiro agrônomo que atua há décadas no cooperativismo e no setor de sementes.

Atual presidente da Coprossel (Cooperativa de Produtores de Sementes) e vice-presidente da Apasem, Paulo Pinto assume a principal entidade representativa do setor de sementes e mudas no Brasil. Fundada em 1972, a Abrasem reúne empresas, associações estaduais e entidades ligadas à pesquisa, produção e comercialização de sementes e mudas, atuando como elo entre o setor produtivo e o governo. “Temos uma expectativa muito boa no enfrentamento dos desafios da Associação para os próximos anos. Estamos com uma nova gestão administrativa e um novo presidente executivo, que juntos darão maior dinamismo à instituição, fortalecendo ainda mais a Abrasem para que possa atender às demandas contemporâneas dos associados”, comenta o presidente, em entrevista à Revista Apasem.

O papel da Associação está justamente em promover o desenvolvimento da cadeia de sementes e mudas, defender os interesses dos associados, além de incentivar a inovação e a qualidade na produção. A Abrasem também participa ativamente da formulação de políticas públicas, normas e legislações que impactam o setor, contribuindo para a segurança alimentar e a sustentabilidade da agricultura brasileira. Confira os principais trechos dessa conversa com o novo presidente da entidade:

Revista Apasem: Como avalia esse início de mandato à frente da Abrasem e quais são as prioridades da gestão?
Paulo Pinto de Oliveira Filho: Assumimos há poucos meses, porém, já atuo na Abrasem há bastante tempo, contribuindo com a elaboração de um planejamento estratégico voltado a fortalecer cada vez mais a instituição. O objetivo, neste momento, é torná-la ainda mais representativa e, assim, proporcionar melhores resultados naquilo que realmente interessa aos nossos associados e ao setor de sementes.

Revista Apasem: Como enxerga os desafios relacionados às questões regulatórias, ao desenvolvimento e à difusão de novas tecnologias, além da comunicação institucional da Abrasem em todo o Brasil?

PPOF: Esse é um dos principais focos em que a Abrasem vem trabalhando. Nosso objetivo é estabelecer um marco regulatório que seja simples, claro e que ofereça segurança a todos os elos da cadeia da indústria de sementes. Para isso, estamos promovendo o diálogo entre todos os interessados — produtores, governo, cientistas e outros profissionais — com o intuito de construir uma estrutura normativa que atenda às necessidades dos nossos associados e do setor como um todo.

Revista Apasem: Quais os principais desafios que o setor de sementes deve enfrentar nos próximos anos e de que forma a Abrasem pode atuar estrategicamente diante desse cenário?

PPOF: A atualização da Lei de Proteção de Cultivares é, sem dúvida, o principal desafio hoje. Trata-se de uma legislação bastante antiga, que precisa ser modernizada para acompanhar as novas tecnologias que vêm surgindo. O setor precisa de uma legislação segura e atualizada, que acompanhe os avanços tecnológicos e continue protegendo os interesses dos nossos associados. Outro ponto crucial é a comunicação com o nosso cliente: o produtor rural. É fundamental que ele compreenda a importância de utilizar sementes de boa qualidade, com todas as tecnologias embarcadas. A Abrasem vem trabalhando nisso há mais de cinco décadas, levando informações relevantes ao campo e representando o setor de sementes. Precisamos reforçar essa comunicação, pois o sucesso do agronegócio brasileiro está diretamente ligado à qualidade da semente — que é o início de tudo. Sementes de alta qualidade, com tecnologia, garantem maior produtividade. Esse é o caminho.

Revista Apasem: Neste sentido, como será tratada a pauta sobre o combate à pirataria de sementes?

PPOF: Com prioridade e seriedade. Quando estive à frente da Associação Paranaense de Sementes e Mudas (Apasem), realizamos um importante trabalho no Paraná, conscientizando os produtores sobre a importância do uso de sementes certificadas, com qualidade comprovada. Muitas vezes, na tentativa de economizar, o produtor acaba utilizando sementes de baixa qualidade e, como resultado, obtém produtividade muito inferior. Agora, com a Abrasem, em parceria com a CropLife, formamos uma coalizão com diversos setores para levar essas informações ao produtor rural em todo o Brasil. Queremos mostrar, primeiro, a importância de utilizar sementes de qualidade, que asseguram boa produtividade e segurança; segundo, alertar que o uso de sementes piratas é crime e pode trazer consequências sérias, como multas e perdas na produção. Essa conscientização é essencial e será um dos pilares do nosso trabalho.

Workshop de Amendoin Guariba-SP

O papel estratégico das CSMs no setor de sementes brasileiro

O setor sementeiro no Brasil conta com um importante instrumento de apoio técnico que contribui para a constante evolução das atividades de produção de sementes e mudas. As Comissões de Sementes e Mudas (CSMs) estão presentes em todo o território nacional, funcionando como órgãos colegiados, de caráter consultivo e de assessoramento ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Entre as atribuições dessas comissões está a proposição de normas e procedimentos complementares relativos à produção, ao comércio e à utilização de sementes e mudas. A coordenação nacional dessas atividades, no entanto, é de responsabilidade do Mapa.

“As estruturas, atribuições e responsabilidades das Comissões de Sementes e Mudas estão estabelecidas no regulamento da Lei”, explica a secretária executiva e membro da Subcomissão de Forrageiras da CSMSP, Sandra Ferreira.

Segundo ela, as comissões são compostas por representantes de entidades federais, estaduais, distritais, municipais e da iniciativa privada, atuantes na fiscalização, pesquisa, ensino, assistência técnica, extensão rural, produção, comércio e uso de sementes e mudas.

“Os representantes são indicados por essas entidades e devem ter vínculo com áreas ligadas à fiscalização, pesquisa, ensino, assistência técnica, extensão rural, produção, comércio ou utilização de sementes e mudas”, destaca Sandra.

Como são compostas

Cada Comissão de Sementes e Mudas é formada por, no mínimo, cinco membros. O presidente e o vice-presidente são eleitos pelos próprios membros da comissão, com mandatos de quatro anos, sendo permitida a reeleição. Já o secretário-executivo é escolhido pelo presidente da comissão.

Na prática

Um exemplo prático de atuação das comissões, citado por Sandra, é o caso do setor do amendoim. Por meio da Subcomissão de Amendoim, foi feita recentemente a solicitação para a instalação de campo de produção de sementes da categoria “Básica” para a colheita de sementes “Básica 1”.

“No caso da autorização para instalação de campos de produção de sementes da categoria S2, de espécies que não apresentam lotes de categoria superior, também houve avanços recentes — como o caso do capim Aruana”, exemplifica Sandra.

Ela destaca ainda que, antes da publicação da Portaria nº 538, de 2022, houve autorização para instalação de campos com sementes S2 de algumas espécies de leguminosas, com base em pleitos encaminhados pela CSMSP.

“Esses são alguns exemplos práticos do impacto positivo da atuação das comissões”, reforça.

Texto e fotos – Revista Apasem Ed. 2025

leandro vieira - Crédito_ Luara Baggi - Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

CTNBio atua na regulamentação de pesquisas e novos produtos do agronegócio

O pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Leandro Vieira Astarita, que esteve como presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) até novembro de 2025, encerrou seu mandato com um grande desafio ao comandar um grupo voltado para a análise e a viabilidade de uma série de novas técnicas e ferramentas que afetam diretamente o agronegócio. Entre elas está a edição gênica, metodologia que avança nas pesquisas sobre produção de sementes. Em entrevista para esta edição da Revista da Apasem, em meados do ano passado, Astarita destacou o avanço e os desafios na regulamentação de organismos editados geneticamente, aliando legislação com o que é pesquisado atualmente no país.

A comissão tem como objetivo a atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança, estabelecendo normas técnicas de segurança e emissão de pareceres para atividades que envolvem os organismos geneticamente modificados (OGMs). Atua na avaliação de pesquisas e desenvolvimento desses produtos, assim como acompanha a sua comercialização e descarte. A meta é garantir segurança para a saúde humana e do meio ambiente como um todo.

“Em todo o mundo, observamos que as novas tecnologias avançam mais rápido do que os legisladores conseguem definir sobre normas e procedimentos. Aqui no Brasil, tivemos uma nova legislação em 2005, que representou efetivamente um avanço, e temos essa lei sobre biossegurança até hoje. É com ela que deliberamos atualmente”, conta.

As plantas ocupavam o foco nas análises e trabalhos da CTNBio, muito por conta da novidade que era a transgenia. Hoje, os microrganismos têm destaque, contribuindo – e muito – para o desenvolvimento de uma série de atividades, como é o caso da indústria de etanol. A biotecnologia está otimizando e melhorando a produção, a partir do maior aproveitamento do bagaço e da cana-de-açúcar como um todo, segundo Astarita. Bactérias e leveduras, dentro do contexto de pesquisa de biossegurança, tomam conta da pauta da comissão. Outro exemplo disso é a evolução do uso de controle biológico nas lavouras país afora, o que impacta, inclusive, os resultados de bons cultivares.

Edição gênica

Já eliminadas as polêmicas do passado e com o avanço das pesquisas, uma das principais atenções da CTNBio é para a edição gênica. “Ela já quebrou paradigmas no mundo todo. Empresas e institutos de pesquisas estão avançando nessas tecnologias para plantas editadas. Não estamos falando em um transgênico, e sim em uma mutação, algo que naturalmente ocorreria. Mas, nas pesquisas, isso é provocado, em vez de procurarmos na natureza, porque sabemos que existe. Ou seja, é um mesmo organismo, e não uma transgenia”, explica Astarita.

Para o pesquisador e presidente da comissão, em relação às plantas e a microrganismos que podem ser usados para beneficiar o agronegócio, entre as questões atuais mais debatidas estão a patente e proteção da tecnologia por parte das empresas que a desenvolveram. A cada reunião da CTNBio, os integrantes recebem várias demandas de liberação comercial, diante da facilidade de se trabalhar com edição gênica.

Um dos desafios é a unificação das regulamentações sobre edição gênica em todo o mundo, o que vai afetar produções e exportações. Já há aprovação, na CTNBio, para vários produtos, como soja e milho editados geneticamente, mas ainda não existe permissão para colocar esses produtos no mercado. “Essa é a grande estratégia. Estão sendo acumuladas várias aprovações, em termos de enquadramento legal como plantas editadas, e não como OGMs, dentro das normas de biossegurança. Agora, em que momento isso vai realmente chegar ao mercado? Acredito que está se encaminhando para uma definição do próprio mercado”, opina.

Como acontece a avaliação

Após autorizações para pesquisas, a CTNBio avalia o produto final e como foi o processo até chegar a esse ponto no seu desenvolvimento. São verificados, por exemplo, onde exatamente aconteceu a edição gênica e em que ponto do processo e da cadeia de DNA. “Não estamos falando de engenharia genética. Nada de novo está sendo colocado naquela planta. Sobre edição gênica, fazemos a mesma avaliação que outros países fazem. A partir da atual lei de biossegurança, determinamos se aquele produto é um organismo convencional, com a edição gênica, ou seja, um organismo não geneticamente modificado”, conta.

Leandro Vieira Astarita esclarece que a atual legislação permite a análise dos pedidos que chegam para a comissão, a partir do que vem sendo desenvolvido por empresas e institutos de pesquisas. Mas, brevemente, o conjunto de leis sobre biossegurança deverá ser melhorado. “A lei ainda é suficiente para termos segurança nas aprovações e nos enquadramentos legais quando falamos de organismos editados. A melhoria é um processo longo, mas aguardado”, sinaliza.

CORRELATA

Pesquisa da Embrapa Soja aposta na edição gênica por CRISPR para desenvolver cultivar com tolerância a secas

A CTNBio foi a responsável por considerar como convencional uma cultivar de soja com tolerância a secas, desenvolvido pela Embrapa Soja, localizada em Londrina, no norte do Paraná. O processo utilizou uma das técnicas de edição gênica conhecidas atualmente: a CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas).

O parecer foi emitido em 2023 e, desde então, os pesquisadores da Embrapa Soja realizam testes em campo para validar a soja editada geneticamente, em diferentes regiões. Até então, em ambientes controlados, as plantas mostraram ser mais tolerantes a secas em relação a outros exemplares. “Já estamos com a segunda safra para multiplicação de sementes, apenas aqui em Londrina. Já temos volume de soja para a continuidade dos testes e o plantio na próxima safra”, conta o pesquisador e chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Lima Nepomuceno. As avaliações incluem o comportamento em diferentes ambientes e a análise de suas características no cultivo e no desenvolvimento da planta.

Para chegar a esse estágio, os pesquisadores identificaram quais genes da soja indicavam maior tolerância a secas. Cultivares com essas características não apresentam, necessariamente, alta produtividade e sanidade. Por isso, a estratégia foi editar geneticamente uma cultivar com apelo comercial e alterar parte do seu DNA para diminuir as perdas de produtividade em casos de seca prolongada.

“Os anos de 2021 e 2022 foram os de safra com a maior seca dos últimos 100 anos. Somente o Paraná perdeu US$ 6 bilhões com a soja não colhida. Com uma variedade mais tolerante, é possível reduzir isso. O quanto? Ainda não sabemos e depende, por exemplo, da duração da seca, da intensidade, do período de desenvolvimento da soja. As cultivares editadas são uma maneira de mexer com o próprio mecanismo da soja, que, diante da escassez de água, preserva apenas alguns grãos e aborta o restante. Quando começa a faltar água, existe um sinal molecular para iniciar esse processo. Se eu conseguir retardá-lo, a perda não deve ser tão grande. A soja editada é uma forma de mexer nesse mecanismo”, esclarece Nepomuceno.

O parecer da CTNBio considerando a soja editada geneticamente como não transgênica acelerou os processos de pesquisas, com redução de prazos e de custos. Favoreceu, ainda, aspectos para uma futura comercialização. Isso abre uma perspectiva mais positiva para que esses cultivares mais tolerantes a secas cheguem ao mercado de maneira mais rápida, na comparação com produtos considerados organismos geneticamente modificados.

Para Nepomuceno, a adoção do CRISPR como método de edição gênica permite maior acesso da biotecnologia por empresas e institutos de pequeno e médio porte. “O uso da edição gênica está se expandindo e tem democratizado a utilização da biotecnologia na agricultura, o que antes estava limitado a poucas empresas. Mas, com a edição genética, vemos que isso está mudando. Empresas pequenas e médias, além de empresas públicas, estão com maior acesso e começamos a ver o impacto disso no mercado. O CRISPR teve grande destaque porque é muito mais rápido e eficiente do que técnicas anteriores”, comenta Nepomuceno, lembrando que Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna receberam o Prêmio Nobel de Química em 2020 em função da descoberta e do desenvolvimento dessa técnica de edição gênica.

Por Joyce Carvalho – Revista Apasem – Ed. 2025

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Um trabalho exemplar para a humanidade

Pela primeira vez na história do Prêmio Mundial de Alimentação – World Food Prize (WFP) –, reconhecido como o “Nobel” da agricultura, tem uma brasileira laureada. Quem recebe tal honraria é a cientista Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, reconhecida por sua relevante contribuição ao desenvolvimento de insumos biológicos para a agricultura.

O prêmio reconhece anualmente as personalidades que contribuem para o aprimoramento da qualidade e da disponibilidade de alimentos no mundo e é tido também como o “Nobel” da agricultura e alimentação, porque essa modalidade não é contemplada nas categorias oficiais do Nobel. “Desde que eu me entendo por gente, queria ser cientista, pesquisadora, microbiologista. Contudo, esse é um prêmio de todas as pessoas que trabalham junto comigo; da Embrapa Soja, que acreditou no propósito e investiu, e também representa a força da mulher no imprescindível papel da segurança alimentar da humanidade”, disse Mariangela em entrevista aos jornalistas Denise Morini, da Revista Paraná Cooperativo e Everson Mizga, da Revista Apasem, no final do mês de julho. Confira abaixo os principais trechos dessa conversa.

Revista Apasem: O que significa, para a senhora, ser hoje uma das personalidades que contribuem para o aprimoramento da qualidade e da disponibilidade de alimentos no mundo, critério que o “Nobel” da agricultura leva em consideração ao eleger os seus laureados?

Mariangela Hungria: Realmente, jamais… jamais mesmo eu poderia imaginar essa indicação. Isso porque é algo muito concorrido com profissionais de renome do mundo todo, ainda mais para nós, brasileiros, que vemos cada vez mais os investimentos em pesquisas minguarem. Em 40 anos de atuação, posso afirmar que nunca vi um período tão ruim para investimentos públicos em pesquisa e olha que já passei por muitas dificuldades, mas parece que agora é ainda mais profundo e sem recursos, a gente não consegue avançar a contento. Está muito difícil fazer pesquisa em nosso país. Na contramão, outros países deslancham cada vez mais. A China, por exemplo, já está com mais do que o dobro de pesquisa de trabalho, se comparada aos Estados Unidos, porque investe em torno de 4% do PIB em ciência, tecnologia e inovação. E nós, aqui, não chegamos nem a 0,5% ou 0,6%, o que é uma pena, porque somos um país com muita gente boa, treinada, capacitada, mas, sem recursos, desperdiçamos esses talentos. Devido a esse cenário, quando falaram meu nome, de fato, não consegui acreditar, assimilei aos poucos e vejo que a repercussão disso está sendo muito grande.

RA: O que leva a Dra. Mariangela a esse feito?

MH: Bom, eles não falaram exatamente, até porque os nomes dos julgadores não são divulgados. Mas tenho uma tese que talvez possa esclarecer essa sua pergunta, que também é a minha pergunta. Imagino que tenha sido pela resiliência, perseverança, resistência de um trabalho que se iniciou lá atrás, numa época em que ninguém acreditava nos biológicos, e eu, mesmo com o cenário desfavorável, nunca desviei a atenção do caminho que havia decidido seguir. Anos atrás, acreditava-se que os biológicos poderiam se limitar somente a uma agricultura orgânica, familiar. Busquei quebrar essa mentalidade e provar, por meio da pesquisa, que ele poderia ser para todos os elos da cadeia, da grande à pequena agricultura. E o legal dessa indicação é que não tive nenhum tipo de comentário negativo sobre esse “resultado”. Mesmo em um país polarizado, ambos os lados reconhecem o impacto positivo desse trabalho realizado por meio da pesquisa. Por isso, me sinto até emocionada ao perceber o alcance que ele teve e olha que a minha carreira desabrochou em meio à soja. Mesmo assim, não recebi críticas por isso.

RA: Quarenta anos dedicados à pesquisa. Qual foi o papel da Embrapa Soja em sua carreira e como o seu trabalho contribuiu para o crescimento da instituição?

MH: Já com formação e com uma carreira iniciada, eu também era mãe de duas garotinhas. Uma delas, com necessidades especiais e eu soube que em Londrina havia ótimas escolas e atendimento médico, que não tinha onde eu atuava. Então, eu, que já atuava na Embrapa no Rio de Janeiro, pedi transferência e vim para o Paraná. Foi ali que começou minha relação com a Embrapa Soja. Foi um começo excelente, mas muito difícil, porque tudo estava na estaca zero. Eu não tinha nada, mas acho que a própria dificuldade foi transformada em oportunidade. E pude formar o meu grupo de pesquisa, construir o meu laboratório e, principalmente, colocar em prática tudo aquilo que estudei e que sonhei em ter resultados como pesquisadora. Minha carreira toda foi junto à Embrapa e me sinto grata e feliz por essa troca que rendeu e rende frutos para ambos os lados.

RA: Qual é o efeito prático de seu trabalho para a humanidade: mitigação da fome, aumento da produção de alimentos e agricultura sustentável?

MH: Olhando o efeito prático, posso dar o exemplo da Embrapa Soja. Se não fosse a gente trabalhar firme nesses microrganismos, o mundo poderia sim passar por dificuldades na alimentação de sua população. Na contribuição para a cultura da soja, a gente não seria, com certeza, um dos exemplos mundiais. E eu falo isso sem um pingo de dúvida: não seríamos o maior produtor, exportador, nem sei se a gente conseguiria produzir. Outro ponto é a questão do preço do fertilizante nitrogenado, que é caríssimo, e a gente precisa importar 85%. Sem contar que ele é o mais poluente de todos os nutrientes. A produção de alimentos brasileira gira em torno de 30% a 40% da parte só de segurança alimentar. Tanto que produzimos, hoje, alimentos para quase um bilhão de pessoas. E, recentemente, milhões deixaram de ter insuficiência alimentar grave em nosso país, por exemplo, embora muita gente ainda tenha insuficiência alimentar grave. Acho que são alguns dos fatores diretos e efeitos práticos de nossa pesquisa. Outro exemplo que podemos citar é que a pesquisa impacta muito a vida dos pequenos e médios agricultores. Muito mais do que você pegar um grande agricultor lá de Mato Grosso, por exemplo. Então, aqui a gente pode fazer a diferença não só na alimentação, como também dessas pessoas que veem a produção ser aumentada em hectares, ou mesmo que após a produção da soja seja possível usar o solo para outras culturas. Isso impacta a área financeira e o produtor consegue, assim, ter meios para buscar outros recursos para aperfeiçoar sua lavoura.

RA: A senhora é a primeira mulher brasileira a conquistar esse reconhecimento. O que isso significa para o Brasil de hoje e para o público feminino?

MH: Preciso frisar que eu nunca e jamais conseguiria fazer nada sozinha. E eu falo que quem sobe lá e recebe o prêmio é a Embrapa, uma instituição pública que investiu e acreditou. A Mariangela é a figura que representa essa conquista. Ela representa todo esse grupo de pessoas que ajudaram a chegar até aqui. E quero lá, no dia do prêmio, fazer uma homenagem às mulheres, pois elas são figuras fundamentais na alimentação da humanidade e pouco se reconhece isso na sociedade. Na segurança alimentar e nutricional, são elas que realmente fazem as hortas domésticas comunitárias, que cuidam das plantas medicinais, são a maioria na agricultura familiar, são as merendeiras ou aquelas que passam os saberes de como preparar os alimentos de geração para geração, são as educadoras que vão ajudar a gente a ter uma nova geração que saiba se alimentar nutricionalmente e por aí vai. Somos nós, agrônomas, extensionistas e pesquisadoras. Ainda trazendo para o ambiente familiar, temos a nostalgia das receitas nutritivas de nossas avós, ou do carinho imenso de nossas mães ao preparar o alimento. Logo será realmente uma oportunidade de jogar luz nesse lindo papel da mulher na segurança alimentar. Sinto-me honrada em representar o público feminino e, de certa forma, passar essa mensagem de valorização desses belos trabalhos que todas nós fazemos ao desempenhar esses papéis na sociedade, que muitas vezes são invisíveis. Enfim, tudo isso! Quero, por meio desse prêmio, reconhecer o papel fundamental da mulher no imprescindível tema da segurança alimentar da humanidade.

RA: Como vê o setor de sementes dentro desse contexto da agricultura contemporânea?

MH: É imprescindível para uma boa agricultura. E por isso tenho uma preocupação: no setor público, a gente sempre se dedicou e levou em consideração a sustentabilidade de toda essa parte de microrganismos; isso requer que se faça o melhoramento das plantas na presença dos microrganismos – diferente do melhoramento da presença de químicos. Então, os cientistas acabam por não acompanhar porque esse processo está no setor privado. Gostaria de deixar essa mensagem, que isso deve ser considerado – e levado em conta –, senão o que que vai acontecer? A soja, por exemplo, pode vir a não mais responder aos biológicos e sim aos químicos. A qualidade das sementes produzidas e que chega ao agricultor é extremamente importante para todos. Por quê? Porque se não chega a semente de qualidade, começa-se a usar mais agroquímicos, fungicidas, inseticidas, e isso atrapalha os biológicos, porque eles matam também os microrganismos do bem. Não são só as daninhas. Ele não sabe matar só o mal, né? Então, para nós também – quanto mais sadia a semente, quanto melhor o vigor, melhor será todo o processo, pois usam-se menos agroquímicos.

Por Everson Mizga – Reportagem Publicada na Revista Apasem ed. 2025 – Fotos: Arquivo Embrapa Soja

Show Rural

Show Rural Digital projeta o futuro do agronegócio com inovação e conexões globais

Integrado ao Show Rural Coopavel desde 2019, o Show Rural Digital tornou-se um dos principais ambientes dedicados à inovação e à transformação digital no evento, que chega à sua 38ª edição. O espaço deixou de ser apenas expositivo para se consolidar como um ponto de encontro entre conhecimento, tecnologia, networking e oportunidades de negócios voltadas ao avanço do agronegócio. De 9 a 13 de fevereiro, a programação reúne 60 apresentações e atividades, além de dezenas de expositores e conteúdos que abrangem toda a cadeia produtiva, da base no campo às soluções tecnológicas mais avançadas.

“O Show Rural Digital é um evento que cresce de forma consistente, gera conteúdo altamente relevante e deixa sua marca a cada edição. Em 2026, teremos mais expositores, mais atrações e uma agenda ainda mais completa”, afirma o coordenador José Rodrigues da Costa Neto. Um dos momentos centrais será o Fórum Internacional das Cooperativas, programado para terça-feira, dia 10, com a participação de CEOs e diretores técnicos de cooperativas do Brasil, Paraguai e Argentina. “O fórum ganhou dimensão internacional e se transformou em um espaço estratégico de discussão sobre o futuro do cooperativismo”, destaca Neto.

A inovação prática também ganha protagonismo com o Hackathon, maratona que desafia equipes a desenvolver soluções para demandas reais do agronegócio em mais de 40 horas de imersão. A equipe vencedora será premiada com uma visita a um dos principais ecossistemas de inovação da América do Sul — experiência vivenciada, no último ano, na Colômbia. Segundo o coordenador, o nível dos projetos apresentados evolui a cada edição, com propostas cada vez mais próximas da realidade de mercado.

Novos caminhos ao agro

A agenda do Show Rural Digital contempla temas como inteligência artificial aplicada ao agronegócio, cibersegurança, eventos climáticos extremos, agricultura de precisão, biotecnologia e valorização de resíduos. O público também poderá participar de rodadas de negócios, painéis com fundos de investimento e iniciativas de inovação aberta, como o Iguassu Valley Show, que trará ao debate as estratégias do ecossistema regional de inovação.

O compromisso com a diversidade segue fortalecido com o retorno do Founders Mulheres, que reunirá cerca de 150 mulheres de diferentes municípios do Oeste do Paraná em uma programação voltada à equidade, liderança feminina e ampliação da participação das mulheres no ecossistema de startups. Entre os participantes confirmados está Renato Chaves, presidente da Extreme Networks América Latina, que integra o Fórum das Cooperativas com reflexões sobre cibersegurança e infraestrutura digital, temas cada vez mais estratégicos e transversais para o setor agropecuário. O Show Rural Digital conta com a parceria do Governo do Paraná, Sebrae, Fiep, UTFPR, Biopark, Ocepar e Iguassu Valley.

Embrapa

ABC lança livro sobre legado da cientista Johanna Döbereiner para agricultura tropical

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) acaba de lançar o livro A Herança de Johanna Döbereiner para a Ciência Agrícola Brasileira e Mundialque celebra o centenário da cientista, considerada um ícone da mundial por suas pesquisas em microbiologia do solo e agricultura sustentável. A publicação congrega os anais do workshop realizado em 28 de novembro de 2024, data em que a pesquisadora completaria 100 anos. A obra é organizada pelos pesquisadores da Embrapa Mariangela Hungria, Fábio Bueno dos Reis Junior e Avílio Antônio Franco e pela professora Maria Domingues Vargas, do Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense.

O livro reúne capítulos de especialistas brasileiros e estrangeiros para apresentar, sob novas perspectivas, a amplitude do legado científico, tecnológico e humano da pesquisadora que transformou  a agricultura tropical. Também traz depoimentos dos filhos, registros históricos e fotografias, combinando rigor científico e memória afetiva.  “Este livro ressalta as contribuições científicas, mas também o lado humano de Johanna Döbereiner: a professora dedicada, a mentora que acreditava no potencial dos jovens, a pesquisadora que enfrentou desafios e preconceitos sem abrir mão da curiosidade e da coragem. Com depoimentos emocionantes e relatos inéditos, a obra revela uma mulher à frente de seu tempo, cuja paixão pela ciência e pelo Brasil inspirou gerações”, destaca Mariangela Hungria.

A pesquisadora afirma ainda que o lançamento reforça o compromisso da ABC com a memória científica do país e com a valorização de pesquisadores que, como Johanna, dedicaram suas vidas ao avanço do conhecimento. “Fica, então, um convite à leitura dessa obra ímpar, que exalta ainda mais a personalidade científica e humana dessa grande cientista brasileira”, diz Mariangela. “O livro deixa claro como o investimento em ciência e tecnologia traz frutos duradouros, que se multiplicaram e repercutem até os dias de hoje”, ressalta.

Quem foi Johanna Döbereiner –  Nascida em 28 de novembro de 1924, em Aussig, então Tchecoslováquia, Johanna enfrentou os efeitos da Segunda Guerra Mundial, sendo forçada a migrar para a Alemanha, onde atuou como trabalhadora rural antes de ingressar, em 1946, no curso de Agronomia da Universidade de Munique. Já demonstrava interesse pioneiro pela microbiologia do solo e pela fixação biológica do nitrogênio, tema de sua monografia de conclusão de curso.

Em 1950, recém-formada e casada com o também agrônomo Jurgen Döbereiner, mudou-se para o Brasil, onde iniciou uma trajetória científica que transformaria a agricultura nacional. Contratada pelo então Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas, antecessor da Embrapa, publicou, em 1951, seu primeiro trabalho científico e passou a defender a ideia inovadora de que os solos tropicais apresentavam características microbiológicas distintas das regiões temperadas, exigindo novas abordagens científicas.

Naturalizada brasileira em 1956, Johanna Döbereiner construiu sua carreira na Embrapa Agrobiologia, em Seropédica (RJ). Entre suas contribuições mais relevantes está a indicação de uso da fixação biológica do nitrogênio na cultura da soja, o que dispensa o uso de fertilizantes nitrogenados. Essa inovação foi decisiva para a viabilidade econômica e ambiental da soja no Brasil, hoje líder mundial na produção do grão.

No campo científico, destacou-se ainda pela descoberta de bactérias capazes de fixar nitrogênio em associação com gramíneas, ampliando o entendimento sobre a fertilidade dos solos tropicais. Seu trabalho rendeu reconhecimento internacional, inúmeros prêmios e a indicação ao Prêmio Nobel de Química. Além disso, formou dezenas de pesquisadores, muitos dos quais hoje lideram grupos de pesquisa nacionais.

SERVIÇO

O livro A Herança de Johanna Döbereiner para a Ciência Agrícola Brasileira e Mundial está disponível gratuitamente para download no site da ABC: https://www.abc.org.br/livro-johanna-dobereiner
Para mais informações, consulte Mariangela Hungria: mariangela.hungria@embrapa.br / (43) 99958-3333