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Tecnologia minimiza impacto de mudanças climáticas na agricultura

Os produtores rurais estão apostando cada vez mais na tecnologia para mitigar os efeitos adversos causados pelas mudanças climáticas nas lavouras. Estudos conduzidos por entidades do setor e instituições acadêmicas podem beneficiar agricultores e consumidores.

Isso porque a agricultura é especialmente vulnerável a eventos extremos, tais como períodos prolongados de chuva, estiagem e temperaturas muito altas ou baixas. Mas 44% dos brasileiros, segundo pesquisa recente do Ipec, não relacionam a alta dos preços de alimentos ao clima. Naturalmente, há outras razões, como custo do frete, sazonalidade da produção e combustíveis. Mas não é mais possível negar que certos itens sofrem bastante com a forte oscilação de fatores naturais.

Nos últimos 12 meses, por exemplo, o mamão, o maracujá, o morango e todos os tubérculos subiram quase 40%, bem acima da inflação oficial (IPCA). Nesses casos, o clima foi determinante.  As chamadas quebras de safra prejudicam o fornecimento desses gêneros alimentícios, gerando desequilíbrio de valores quando comparados a outros produtos.

Na tentativa de equacionar esses problemas, cientistas brasileiros desenvolvem novas gerações de plantas, no Laboratório de Meio Ambiente da Embrapa, em Jaguariúna (SP). Uma bactéria extraída do mandacaru, espécie típica do semiárido nordestino, já é aplicada com sucesso em plantações de milho. Sob condições de seca, esse agente produz substâncias que hidratam a raiz, fazendo-a crescer mais à procura de nutrientes e água, suportando por mais tempo a estiagem. Apenas 4 ml de líquido contendo a bactéria são misturados a um 1 Kg de sementes. A descoberta é resultado de doze anos de pesquisa.

A nova tecnologia já foi registrada no Ministério da Agricultura para, além do milho, ser usada na soja. Também já foram feitos testes em culturas de cana de açúcar e café. Todos esses produtos são seguros e abrem novos horizontes de pesquisa para enfrentar as mudanças no clima. Extraídos da própria natureza, não trazem risco à saúde humana e já minimizam, sobretudo, os efeitos da seca em várias regiões do País.

Giampaolo Pellegrino*, pesquisador da Embrapa, conversou com a SNA sobre esses novos paradigmas, ressaltando que certas culturas tendem a migrar para regiões mais moderadas em termos de temperatura, para fugir dos extremos de frio e calor. Além desse movimento, há a questão do desequilíbrio trazido por eventos esporádicos, como secas ou enchentes, que impactam gravemente a produção. Para ele, a abordagem deve acompanhar as vertentes de mitigação, isto é, reduzir os efeitos inerentes à própria atividade agrícola, como as emissões de carbono; e de adaptação, ou seja, adequar os métodos e técnicas às situações ligadas ao aumento médio da temperatura global e sua repercussão.

Nesse sentido, ele salienta que o melhor controle dos recursos hídricos é fundamental, pois a disponibilidade de água tende a cair em muitos dos cenários de oscilação climática. Pellegrino destaca também o Plano ABC da Embrapa, que busca justamente fomentar as práticas sustentáveis como estratégias de recuperação de pastagens e tratamento de dejetos animais. Adotadas em larga escala, possuem grande potencial de mitigação de emissão de gases geradores do efeito estufa.

Pellegrino aponta o sistema de plantio direto, e a fixação biológica de nitrogênio como bons exemplos em que o manejo e o aprimoramento genético caminham juntos, uma vez que a matéria orgânica é preservada sem o revolvimento do solo, enquanto as raízes não precisam de tanto fertilizante, já que as substâncias são inoculadas nas raízes.

Por fim, Pellegrino lembra que todo esse conjunto visa também aumentar a competitividade do setor, além de cumprir as metas assumidas pelo Estado Brasileiro em acordos internacionais. Ele explica, também, a Integração – Lavoura – Pecuária – Floresta (ILPF), uma forma de diversificação e intensificação da produção, com aumento de renda, manejo mais qualificado e eficiente, maior sustentabilidade e adaptação do sistema produtivo. Com efeito, há menos emissões e um balanceamento mais equilibrado de carbono.

*Giampaolo Queiroz Pellegrino é pesquisador da Embrapa Agricultura Digital na área de Mudanças Climáticas Globais e coordenador do Portfólio de Pesquisa em Mudanças Climáticas da Embrapa. É engenheiro florestal pela USP, com mestrado em agronomia, também pela USP, e doutorado em Engenharia Agrícola pela Unicamp. Sua experiência tem ênfase em Agrometeorologia, atuando principalmente nos temas mudanças climáticas globais e seus impactos na agricultura; análise de tendências; modelagem ambiental e simulação de cenários.

Fonte: Mais Soja via Marcelo Sá/Equipe SNA Foto: Divulgação

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