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Um paranaense na liderança da Abrasem

A Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) tem um paranaense como presidente na gestão 2025-2028. Trata-se de Paulo Pinto de Oliveira Filho, agropecuarista e engenheiro agrônomo que atua há décadas no cooperativismo e no setor de sementes.

Atual presidente da Coprossel (Cooperativa de Produtores de Sementes) e vice-presidente da Apasem, Paulo Pinto assume a principal entidade representativa do setor de sementes e mudas no Brasil. Fundada em 1972, a Abrasem reúne empresas, associações estaduais e entidades ligadas à pesquisa, produção e comercialização de sementes e mudas, atuando como elo entre o setor produtivo e o governo. “Temos uma expectativa muito boa no enfrentamento dos desafios da Associação para os próximos anos. Estamos com uma nova gestão administrativa e um novo presidente executivo, que juntos darão maior dinamismo à instituição, fortalecendo ainda mais a Abrasem para que possa atender às demandas contemporâneas dos associados”, comenta o presidente, em entrevista à Revista Apasem.

O papel da Associação está justamente em promover o desenvolvimento da cadeia de sementes e mudas, defender os interesses dos associados, além de incentivar a inovação e a qualidade na produção. A Abrasem também participa ativamente da formulação de políticas públicas, normas e legislações que impactam o setor, contribuindo para a segurança alimentar e a sustentabilidade da agricultura brasileira. Confira os principais trechos dessa conversa com o novo presidente da entidade:

Revista Apasem: Como avalia esse início de mandato à frente da Abrasem e quais são as prioridades da gestão?
Paulo Pinto de Oliveira Filho: Assumimos há poucos meses, porém, já atuo na Abrasem há bastante tempo, contribuindo com a elaboração de um planejamento estratégico voltado a fortalecer cada vez mais a instituição. O objetivo, neste momento, é torná-la ainda mais representativa e, assim, proporcionar melhores resultados naquilo que realmente interessa aos nossos associados e ao setor de sementes.

Revista Apasem: Como enxerga os desafios relacionados às questões regulatórias, ao desenvolvimento e à difusão de novas tecnologias, além da comunicação institucional da Abrasem em todo o Brasil?

PPOF: Esse é um dos principais focos em que a Abrasem vem trabalhando. Nosso objetivo é estabelecer um marco regulatório que seja simples, claro e que ofereça segurança a todos os elos da cadeia da indústria de sementes. Para isso, estamos promovendo o diálogo entre todos os interessados — produtores, governo, cientistas e outros profissionais — com o intuito de construir uma estrutura normativa que atenda às necessidades dos nossos associados e do setor como um todo.

Revista Apasem: Quais os principais desafios que o setor de sementes deve enfrentar nos próximos anos e de que forma a Abrasem pode atuar estrategicamente diante desse cenário?

PPOF: A atualização da Lei de Proteção de Cultivares é, sem dúvida, o principal desafio hoje. Trata-se de uma legislação bastante antiga, que precisa ser modernizada para acompanhar as novas tecnologias que vêm surgindo. O setor precisa de uma legislação segura e atualizada, que acompanhe os avanços tecnológicos e continue protegendo os interesses dos nossos associados. Outro ponto crucial é a comunicação com o nosso cliente: o produtor rural. É fundamental que ele compreenda a importância de utilizar sementes de boa qualidade, com todas as tecnologias embarcadas. A Abrasem vem trabalhando nisso há mais de cinco décadas, levando informações relevantes ao campo e representando o setor de sementes. Precisamos reforçar essa comunicação, pois o sucesso do agronegócio brasileiro está diretamente ligado à qualidade da semente — que é o início de tudo. Sementes de alta qualidade, com tecnologia, garantem maior produtividade. Esse é o caminho.

Revista Apasem: Neste sentido, como será tratada a pauta sobre o combate à pirataria de sementes?

PPOF: Com prioridade e seriedade. Quando estive à frente da Associação Paranaense de Sementes e Mudas (Apasem), realizamos um importante trabalho no Paraná, conscientizando os produtores sobre a importância do uso de sementes certificadas, com qualidade comprovada. Muitas vezes, na tentativa de economizar, o produtor acaba utilizando sementes de baixa qualidade e, como resultado, obtém produtividade muito inferior. Agora, com a Abrasem, em parceria com a CropLife, formamos uma coalizão com diversos setores para levar essas informações ao produtor rural em todo o Brasil. Queremos mostrar, primeiro, a importância de utilizar sementes de qualidade, que asseguram boa produtividade e segurança; segundo, alertar que o uso de sementes piratas é crime e pode trazer consequências sérias, como multas e perdas na produção. Essa conscientização é essencial e será um dos pilares do nosso trabalho.

Workshop de Amendoin Guariba-SP

O papel estratégico das CSMs no setor de sementes brasileiro

O setor sementeiro no Brasil conta com um importante instrumento de apoio técnico que contribui para a constante evolução das atividades de produção de sementes e mudas. As Comissões de Sementes e Mudas (CSMs) estão presentes em todo o território nacional, funcionando como órgãos colegiados, de caráter consultivo e de assessoramento ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Entre as atribuições dessas comissões está a proposição de normas e procedimentos complementares relativos à produção, ao comércio e à utilização de sementes e mudas. A coordenação nacional dessas atividades, no entanto, é de responsabilidade do Mapa.

“As estruturas, atribuições e responsabilidades das Comissões de Sementes e Mudas estão estabelecidas no regulamento da Lei”, explica a secretária executiva e membro da Subcomissão de Forrageiras da CSMSP, Sandra Ferreira.

Segundo ela, as comissões são compostas por representantes de entidades federais, estaduais, distritais, municipais e da iniciativa privada, atuantes na fiscalização, pesquisa, ensino, assistência técnica, extensão rural, produção, comércio e uso de sementes e mudas.

“Os representantes são indicados por essas entidades e devem ter vínculo com áreas ligadas à fiscalização, pesquisa, ensino, assistência técnica, extensão rural, produção, comércio ou utilização de sementes e mudas”, destaca Sandra.

Como são compostas

Cada Comissão de Sementes e Mudas é formada por, no mínimo, cinco membros. O presidente e o vice-presidente são eleitos pelos próprios membros da comissão, com mandatos de quatro anos, sendo permitida a reeleição. Já o secretário-executivo é escolhido pelo presidente da comissão.

Na prática

Um exemplo prático de atuação das comissões, citado por Sandra, é o caso do setor do amendoim. Por meio da Subcomissão de Amendoim, foi feita recentemente a solicitação para a instalação de campo de produção de sementes da categoria “Básica” para a colheita de sementes “Básica 1”.

“No caso da autorização para instalação de campos de produção de sementes da categoria S2, de espécies que não apresentam lotes de categoria superior, também houve avanços recentes — como o caso do capim Aruana”, exemplifica Sandra.

Ela destaca ainda que, antes da publicação da Portaria nº 538, de 2022, houve autorização para instalação de campos com sementes S2 de algumas espécies de leguminosas, com base em pleitos encaminhados pela CSMSP.

“Esses são alguns exemplos práticos do impacto positivo da atuação das comissões”, reforça.

Texto e fotos – Revista Apasem Ed. 2025

leandro vieira - Crédito_ Luara Baggi - Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

CTNBio atua na regulamentação de pesquisas e novos produtos do agronegócio

O pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Leandro Vieira Astarita, que esteve como presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) até novembro de 2025, encerrou seu mandato com um grande desafio ao comandar um grupo voltado para a análise e a viabilidade de uma série de novas técnicas e ferramentas que afetam diretamente o agronegócio. Entre elas está a edição gênica, metodologia que avança nas pesquisas sobre produção de sementes. Em entrevista para esta edição da Revista da Apasem, em meados do ano passado, Astarita destacou o avanço e os desafios na regulamentação de organismos editados geneticamente, aliando legislação com o que é pesquisado atualmente no país.

A comissão tem como objetivo a atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança, estabelecendo normas técnicas de segurança e emissão de pareceres para atividades que envolvem os organismos geneticamente modificados (OGMs). Atua na avaliação de pesquisas e desenvolvimento desses produtos, assim como acompanha a sua comercialização e descarte. A meta é garantir segurança para a saúde humana e do meio ambiente como um todo.

“Em todo o mundo, observamos que as novas tecnologias avançam mais rápido do que os legisladores conseguem definir sobre normas e procedimentos. Aqui no Brasil, tivemos uma nova legislação em 2005, que representou efetivamente um avanço, e temos essa lei sobre biossegurança até hoje. É com ela que deliberamos atualmente”, conta.

As plantas ocupavam o foco nas análises e trabalhos da CTNBio, muito por conta da novidade que era a transgenia. Hoje, os microrganismos têm destaque, contribuindo – e muito – para o desenvolvimento de uma série de atividades, como é o caso da indústria de etanol. A biotecnologia está otimizando e melhorando a produção, a partir do maior aproveitamento do bagaço e da cana-de-açúcar como um todo, segundo Astarita. Bactérias e leveduras, dentro do contexto de pesquisa de biossegurança, tomam conta da pauta da comissão. Outro exemplo disso é a evolução do uso de controle biológico nas lavouras país afora, o que impacta, inclusive, os resultados de bons cultivares.

Edição gênica

Já eliminadas as polêmicas do passado e com o avanço das pesquisas, uma das principais atenções da CTNBio é para a edição gênica. “Ela já quebrou paradigmas no mundo todo. Empresas e institutos de pesquisas estão avançando nessas tecnologias para plantas editadas. Não estamos falando em um transgênico, e sim em uma mutação, algo que naturalmente ocorreria. Mas, nas pesquisas, isso é provocado, em vez de procurarmos na natureza, porque sabemos que existe. Ou seja, é um mesmo organismo, e não uma transgenia”, explica Astarita.

Para o pesquisador e presidente da comissão, em relação às plantas e a microrganismos que podem ser usados para beneficiar o agronegócio, entre as questões atuais mais debatidas estão a patente e proteção da tecnologia por parte das empresas que a desenvolveram. A cada reunião da CTNBio, os integrantes recebem várias demandas de liberação comercial, diante da facilidade de se trabalhar com edição gênica.

Um dos desafios é a unificação das regulamentações sobre edição gênica em todo o mundo, o que vai afetar produções e exportações. Já há aprovação, na CTNBio, para vários produtos, como soja e milho editados geneticamente, mas ainda não existe permissão para colocar esses produtos no mercado. “Essa é a grande estratégia. Estão sendo acumuladas várias aprovações, em termos de enquadramento legal como plantas editadas, e não como OGMs, dentro das normas de biossegurança. Agora, em que momento isso vai realmente chegar ao mercado? Acredito que está se encaminhando para uma definição do próprio mercado”, opina.

Como acontece a avaliação

Após autorizações para pesquisas, a CTNBio avalia o produto final e como foi o processo até chegar a esse ponto no seu desenvolvimento. São verificados, por exemplo, onde exatamente aconteceu a edição gênica e em que ponto do processo e da cadeia de DNA. “Não estamos falando de engenharia genética. Nada de novo está sendo colocado naquela planta. Sobre edição gênica, fazemos a mesma avaliação que outros países fazem. A partir da atual lei de biossegurança, determinamos se aquele produto é um organismo convencional, com a edição gênica, ou seja, um organismo não geneticamente modificado”, conta.

Leandro Vieira Astarita esclarece que a atual legislação permite a análise dos pedidos que chegam para a comissão, a partir do que vem sendo desenvolvido por empresas e institutos de pesquisas. Mas, brevemente, o conjunto de leis sobre biossegurança deverá ser melhorado. “A lei ainda é suficiente para termos segurança nas aprovações e nos enquadramentos legais quando falamos de organismos editados. A melhoria é um processo longo, mas aguardado”, sinaliza.

CORRELATA

Pesquisa da Embrapa Soja aposta na edição gênica por CRISPR para desenvolver cultivar com tolerância a secas

A CTNBio foi a responsável por considerar como convencional uma cultivar de soja com tolerância a secas, desenvolvido pela Embrapa Soja, localizada em Londrina, no norte do Paraná. O processo utilizou uma das técnicas de edição gênica conhecidas atualmente: a CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas).

O parecer foi emitido em 2023 e, desde então, os pesquisadores da Embrapa Soja realizam testes em campo para validar a soja editada geneticamente, em diferentes regiões. Até então, em ambientes controlados, as plantas mostraram ser mais tolerantes a secas em relação a outros exemplares. “Já estamos com a segunda safra para multiplicação de sementes, apenas aqui em Londrina. Já temos volume de soja para a continuidade dos testes e o plantio na próxima safra”, conta o pesquisador e chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Lima Nepomuceno. As avaliações incluem o comportamento em diferentes ambientes e a análise de suas características no cultivo e no desenvolvimento da planta.

Para chegar a esse estágio, os pesquisadores identificaram quais genes da soja indicavam maior tolerância a secas. Cultivares com essas características não apresentam, necessariamente, alta produtividade e sanidade. Por isso, a estratégia foi editar geneticamente uma cultivar com apelo comercial e alterar parte do seu DNA para diminuir as perdas de produtividade em casos de seca prolongada.

“Os anos de 2021 e 2022 foram os de safra com a maior seca dos últimos 100 anos. Somente o Paraná perdeu US$ 6 bilhões com a soja não colhida. Com uma variedade mais tolerante, é possível reduzir isso. O quanto? Ainda não sabemos e depende, por exemplo, da duração da seca, da intensidade, do período de desenvolvimento da soja. As cultivares editadas são uma maneira de mexer com o próprio mecanismo da soja, que, diante da escassez de água, preserva apenas alguns grãos e aborta o restante. Quando começa a faltar água, existe um sinal molecular para iniciar esse processo. Se eu conseguir retardá-lo, a perda não deve ser tão grande. A soja editada é uma forma de mexer nesse mecanismo”, esclarece Nepomuceno.

O parecer da CTNBio considerando a soja editada geneticamente como não transgênica acelerou os processos de pesquisas, com redução de prazos e de custos. Favoreceu, ainda, aspectos para uma futura comercialização. Isso abre uma perspectiva mais positiva para que esses cultivares mais tolerantes a secas cheguem ao mercado de maneira mais rápida, na comparação com produtos considerados organismos geneticamente modificados.

Para Nepomuceno, a adoção do CRISPR como método de edição gênica permite maior acesso da biotecnologia por empresas e institutos de pequeno e médio porte. “O uso da edição gênica está se expandindo e tem democratizado a utilização da biotecnologia na agricultura, o que antes estava limitado a poucas empresas. Mas, com a edição genética, vemos que isso está mudando. Empresas pequenas e médias, além de empresas públicas, estão com maior acesso e começamos a ver o impacto disso no mercado. O CRISPR teve grande destaque porque é muito mais rápido e eficiente do que técnicas anteriores”, comenta Nepomuceno, lembrando que Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna receberam o Prêmio Nobel de Química em 2020 em função da descoberta e do desenvolvimento dessa técnica de edição gênica.

Por Joyce Carvalho – Revista Apasem – Ed. 2025

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Um trabalho exemplar para a humanidade

Pela primeira vez na história do Prêmio Mundial de Alimentação – World Food Prize (WFP) –, reconhecido como o “Nobel” da agricultura, tem uma brasileira laureada. Quem recebe tal honraria é a cientista Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, reconhecida por sua relevante contribuição ao desenvolvimento de insumos biológicos para a agricultura.

O prêmio reconhece anualmente as personalidades que contribuem para o aprimoramento da qualidade e da disponibilidade de alimentos no mundo e é tido também como o “Nobel” da agricultura e alimentação, porque essa modalidade não é contemplada nas categorias oficiais do Nobel. “Desde que eu me entendo por gente, queria ser cientista, pesquisadora, microbiologista. Contudo, esse é um prêmio de todas as pessoas que trabalham junto comigo; da Embrapa Soja, que acreditou no propósito e investiu, e também representa a força da mulher no imprescindível papel da segurança alimentar da humanidade”, disse Mariangela em entrevista aos jornalistas Denise Morini, da Revista Paraná Cooperativo e Everson Mizga, da Revista Apasem, no final do mês de julho. Confira abaixo os principais trechos dessa conversa.

Revista Apasem: O que significa, para a senhora, ser hoje uma das personalidades que contribuem para o aprimoramento da qualidade e da disponibilidade de alimentos no mundo, critério que o “Nobel” da agricultura leva em consideração ao eleger os seus laureados?

Mariangela Hungria: Realmente, jamais… jamais mesmo eu poderia imaginar essa indicação. Isso porque é algo muito concorrido com profissionais de renome do mundo todo, ainda mais para nós, brasileiros, que vemos cada vez mais os investimentos em pesquisas minguarem. Em 40 anos de atuação, posso afirmar que nunca vi um período tão ruim para investimentos públicos em pesquisa e olha que já passei por muitas dificuldades, mas parece que agora é ainda mais profundo e sem recursos, a gente não consegue avançar a contento. Está muito difícil fazer pesquisa em nosso país. Na contramão, outros países deslancham cada vez mais. A China, por exemplo, já está com mais do que o dobro de pesquisa de trabalho, se comparada aos Estados Unidos, porque investe em torno de 4% do PIB em ciência, tecnologia e inovação. E nós, aqui, não chegamos nem a 0,5% ou 0,6%, o que é uma pena, porque somos um país com muita gente boa, treinada, capacitada, mas, sem recursos, desperdiçamos esses talentos. Devido a esse cenário, quando falaram meu nome, de fato, não consegui acreditar, assimilei aos poucos e vejo que a repercussão disso está sendo muito grande.

RA: O que leva a Dra. Mariangela a esse feito?

MH: Bom, eles não falaram exatamente, até porque os nomes dos julgadores não são divulgados. Mas tenho uma tese que talvez possa esclarecer essa sua pergunta, que também é a minha pergunta. Imagino que tenha sido pela resiliência, perseverança, resistência de um trabalho que se iniciou lá atrás, numa época em que ninguém acreditava nos biológicos, e eu, mesmo com o cenário desfavorável, nunca desviei a atenção do caminho que havia decidido seguir. Anos atrás, acreditava-se que os biológicos poderiam se limitar somente a uma agricultura orgânica, familiar. Busquei quebrar essa mentalidade e provar, por meio da pesquisa, que ele poderia ser para todos os elos da cadeia, da grande à pequena agricultura. E o legal dessa indicação é que não tive nenhum tipo de comentário negativo sobre esse “resultado”. Mesmo em um país polarizado, ambos os lados reconhecem o impacto positivo desse trabalho realizado por meio da pesquisa. Por isso, me sinto até emocionada ao perceber o alcance que ele teve e olha que a minha carreira desabrochou em meio à soja. Mesmo assim, não recebi críticas por isso.

RA: Quarenta anos dedicados à pesquisa. Qual foi o papel da Embrapa Soja em sua carreira e como o seu trabalho contribuiu para o crescimento da instituição?

MH: Já com formação e com uma carreira iniciada, eu também era mãe de duas garotinhas. Uma delas, com necessidades especiais e eu soube que em Londrina havia ótimas escolas e atendimento médico, que não tinha onde eu atuava. Então, eu, que já atuava na Embrapa no Rio de Janeiro, pedi transferência e vim para o Paraná. Foi ali que começou minha relação com a Embrapa Soja. Foi um começo excelente, mas muito difícil, porque tudo estava na estaca zero. Eu não tinha nada, mas acho que a própria dificuldade foi transformada em oportunidade. E pude formar o meu grupo de pesquisa, construir o meu laboratório e, principalmente, colocar em prática tudo aquilo que estudei e que sonhei em ter resultados como pesquisadora. Minha carreira toda foi junto à Embrapa e me sinto grata e feliz por essa troca que rendeu e rende frutos para ambos os lados.

RA: Qual é o efeito prático de seu trabalho para a humanidade: mitigação da fome, aumento da produção de alimentos e agricultura sustentável?

MH: Olhando o efeito prático, posso dar o exemplo da Embrapa Soja. Se não fosse a gente trabalhar firme nesses microrganismos, o mundo poderia sim passar por dificuldades na alimentação de sua população. Na contribuição para a cultura da soja, a gente não seria, com certeza, um dos exemplos mundiais. E eu falo isso sem um pingo de dúvida: não seríamos o maior produtor, exportador, nem sei se a gente conseguiria produzir. Outro ponto é a questão do preço do fertilizante nitrogenado, que é caríssimo, e a gente precisa importar 85%. Sem contar que ele é o mais poluente de todos os nutrientes. A produção de alimentos brasileira gira em torno de 30% a 40% da parte só de segurança alimentar. Tanto que produzimos, hoje, alimentos para quase um bilhão de pessoas. E, recentemente, milhões deixaram de ter insuficiência alimentar grave em nosso país, por exemplo, embora muita gente ainda tenha insuficiência alimentar grave. Acho que são alguns dos fatores diretos e efeitos práticos de nossa pesquisa. Outro exemplo que podemos citar é que a pesquisa impacta muito a vida dos pequenos e médios agricultores. Muito mais do que você pegar um grande agricultor lá de Mato Grosso, por exemplo. Então, aqui a gente pode fazer a diferença não só na alimentação, como também dessas pessoas que veem a produção ser aumentada em hectares, ou mesmo que após a produção da soja seja possível usar o solo para outras culturas. Isso impacta a área financeira e o produtor consegue, assim, ter meios para buscar outros recursos para aperfeiçoar sua lavoura.

RA: A senhora é a primeira mulher brasileira a conquistar esse reconhecimento. O que isso significa para o Brasil de hoje e para o público feminino?

MH: Preciso frisar que eu nunca e jamais conseguiria fazer nada sozinha. E eu falo que quem sobe lá e recebe o prêmio é a Embrapa, uma instituição pública que investiu e acreditou. A Mariangela é a figura que representa essa conquista. Ela representa todo esse grupo de pessoas que ajudaram a chegar até aqui. E quero lá, no dia do prêmio, fazer uma homenagem às mulheres, pois elas são figuras fundamentais na alimentação da humanidade e pouco se reconhece isso na sociedade. Na segurança alimentar e nutricional, são elas que realmente fazem as hortas domésticas comunitárias, que cuidam das plantas medicinais, são a maioria na agricultura familiar, são as merendeiras ou aquelas que passam os saberes de como preparar os alimentos de geração para geração, são as educadoras que vão ajudar a gente a ter uma nova geração que saiba se alimentar nutricionalmente e por aí vai. Somos nós, agrônomas, extensionistas e pesquisadoras. Ainda trazendo para o ambiente familiar, temos a nostalgia das receitas nutritivas de nossas avós, ou do carinho imenso de nossas mães ao preparar o alimento. Logo será realmente uma oportunidade de jogar luz nesse lindo papel da mulher na segurança alimentar. Sinto-me honrada em representar o público feminino e, de certa forma, passar essa mensagem de valorização desses belos trabalhos que todas nós fazemos ao desempenhar esses papéis na sociedade, que muitas vezes são invisíveis. Enfim, tudo isso! Quero, por meio desse prêmio, reconhecer o papel fundamental da mulher no imprescindível tema da segurança alimentar da humanidade.

RA: Como vê o setor de sementes dentro desse contexto da agricultura contemporânea?

MH: É imprescindível para uma boa agricultura. E por isso tenho uma preocupação: no setor público, a gente sempre se dedicou e levou em consideração a sustentabilidade de toda essa parte de microrganismos; isso requer que se faça o melhoramento das plantas na presença dos microrganismos – diferente do melhoramento da presença de químicos. Então, os cientistas acabam por não acompanhar porque esse processo está no setor privado. Gostaria de deixar essa mensagem, que isso deve ser considerado – e levado em conta –, senão o que que vai acontecer? A soja, por exemplo, pode vir a não mais responder aos biológicos e sim aos químicos. A qualidade das sementes produzidas e que chega ao agricultor é extremamente importante para todos. Por quê? Porque se não chega a semente de qualidade, começa-se a usar mais agroquímicos, fungicidas, inseticidas, e isso atrapalha os biológicos, porque eles matam também os microrganismos do bem. Não são só as daninhas. Ele não sabe matar só o mal, né? Então, para nós também – quanto mais sadia a semente, quanto melhor o vigor, melhor será todo o processo, pois usam-se menos agroquímicos.

Por Everson Mizga – Reportagem Publicada na Revista Apasem ed. 2025 – Fotos: Arquivo Embrapa Soja

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XXIII Congresso Brasileiro de Sementes

A ABRATES – Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes tem o prazer de promover a 23ª edição do Congresso Brasileiro de Sementes, que acontecerá de 25 a 28 de agosto de 2026. O evento será sediado no renomado Rafain Palace Hotel & Convention, em Foz do Iguaçu, Paraná.

Desde sua criação em 1979, o CBSementes se consolidou como o principal e mais influente encontro do setor, com reconhecimento nacional e internacional. Ele serve como ponto de convergência para profissionais, técnicos, produtores, empreendedores, pesquisadores, educadores e estudantes (tanto de graduação quanto de pós-graduação) que atuam na cadeia produtiva de sementes, atraindo também as principais corporações da área. Para a edição de 2026, a expectativa é receber um público superior a 1.500 participantes.

Inscrições abertas e podem ser realizadas por meio do site: CBSementes 2026

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Portaria do Paraná amplia período de plantio da soja para produção de sementes

A Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) assinou nesta terça-feira (13) a portaria que amplia o período de plantio da soja no Estado, ajustando o calendário de semeadura em razão dos impactos provocados por fatores climáticos na safra 2025/2026. A medida atende especificamente os produtores de sementes de soja que enfrentaram atrasos na liberação das áreas agrícolas por conta de condições adversas que comprometeram o ciclo de culturas antecessoras, como milho e feijão.

A ampliação do tempo de plantio é válida exclusivamente para áreas destinadas à produção de sementes de soja no Paraná. Mesmo com a mudança no calendário, o vazio sanitário da soja permanece obrigatório, sendo previsto pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio de uma portaria específica do governo federal.

Pelas normas da Adapar, os produtores aptos a plantar soja devem cumprir os seguintes critérios: atender às exigências quanto à produção de sementes previstas pelo Mapa; comunicar o local de cultivo à Adapar com antecedência de cinco dias da data de semeadura; garantir a colheita ou interrupção do ciclo antes do início do vazio sanitário em sua região; e preencher o formulário oficial obrigatório.

Além de atender a uma demanda concreta do setor produtivo, a medida que permite ampliar o plantio de soja está alinhada ao Programa Nacional de Controle da Ferrugem Asiática da Soja e às estratégias de racionalização do uso de fungicidas, contribuindo para a sustentabilidade da produção agrícola paranaense.

“Como o Paraná é um dos maiores produtores de semente, neste momento está sendo realizado o cadastro das empresas. A partir daí será iniciado o processo de fiscalização com relação à questão da produção de sementes”, afirma Otamir Martins, diretor-presidente da Adapar. Ele destaca ainda que as ações de fiscalização e monitoramento serão realizadas de modo aleatório, com o acompanhamento por parte dos fiscais de defesa agropecuária da Adapar, com os dados recebidos e acompanhados pelos responsáveis técnicos das cooperativas e casas agropecuárias.

As datas oficiais de plantio e vazio sanitário são:

Região 01 (Sul, Leste, Campos Gerais e Litoral)

Plantio – 20/09 a 20/01

Vazio Sanitário – 21/06 a 19/09

Região 02 (Norte, Noroeste, Centro-Oeste e Oeste)

Plantio – 01/09 a 31/12

Vazio Sanitário – 02/06 a 31/08

Região 03 (Sudoeste)

Plantio – 11/09 a 10/01

Vazio Sanitário – 12/06 a 10/09

O vazio sanitário é uma das principais ferramentas no combate à ferrugem asiática da soja, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, que pode provocar perdas severas na safra. Durante esse período, é proibida a presença de plantas vivas de soja no campo, incluindo plantas voluntárias, com o objetivo de reduzir o patógeno no ambiente e retardar sua ocorrência na safra seguinte.

Segundo o chefe do Departamento de Sanidade Vegetal da Adapar, Paulo Brandão, a ferrugem asiática da soja é comum no campo e faz parte do manejo fitossanitário, por isso a antecipação do plantio deve levar em conta todos os critérios técnicos. “O vazio sanitário da cultura deve ser adotado sempre por todos os agricultores, em benefício dos mesmos, e é implementado de acordo com critérios técnicos”, afirma. “O vazio sanitário não pode ser inferior a 90 dias consecutivos, e deve respeitar as datas já estabelecidas na safra em desenvolvimento”.

Fonte: AEN Foto: Gilson Abreu/Arquivo AEN

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Você já parou para pensar de onde vem o feijão que chega à sua mesa?

A Apasem participou da publicação do Anuagro 2025 – Anuário do Agronegócio dos Campos Gerais, no espaço Agro é Escola, com um objetivo especial: aproximar as crianças do universo das sementes a partir de algo que já faz parte do dia a dia delas: o feijão.

A região dos Campos Gerais é referência nacional na produção de sementes de feijão e, de forma lúdica e educativa, o conteúdo apresenta um tema essencial: a importância do uso de sementes legais e os riscos da pirataria de sementes.

O conhecimento é semeado desde cedo, mostrando como escolhas corretas no campo fazem diferença para toda a sociedade.

Leia a publicação completa no link abaixo.

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Fórum CSM-PR 2025 fortalece e integra profissionais de produção, pesquisa e tecnologia

O Fórum Técnico da Comissão de Sementes e Mudas do Paraná (CSM-PR), o principal encontro do setor de sementes do estado, que começou na terça-feira (25) segue até esta quinta-feira (27). Realizado em Londrina, o primeiro dia de encontro reuniu diversas referências do setor, que durante o Painel 1 discutiram sobre O Negócio de Sementes – Panorama Atual e Perspectivas Futuras.

Participaram do painel a Dra. Sheila Bigolin, Sementes Oilema; Roberto Destro, Coamo; Paulo Pinto de Oliveira Filho, Coprossel; Verônica Bertagnolli, Sementes Butiá e Dr. Silmar Peske, Seed News.

Neste dia também teve o Momento MAPA, que abordou a Agenda Regulatória: Sistema Nacional de Sementes e Mudas, além de espaço aberto para visita aos estandes.

Organizado pela Associação Paranaense dos Produtores de Sementes e Mudas (Apasem), o Fórum segue até amanhã (27) com especialistas que vão debater aspectos legais e demandas recorrentes do segmento produtivo.

Na quarta-feira pela manhã aconteceram os painéis 2 com o tema Mentes que Lideram, ministrado por Raquel Mendes, da RM Consultoria; e Painel 3, que abordou Análise de Sementes “Precisão e confiabilidade no centro da qualidade”, com os profissionais – Caroline Caetano, Seedcare Syngenta; Dr. Ricardo Bagateli; Dr. José de Barros França Neto, Embrapa Soja; Juliana Veiga, Apasem; Dra. Sheila Bigolin, Sementes Oilema e Caroline Caetano, Seedcare Syngenta.

À tarde o Painel 4 traz as Novas RAS – Principais mudanças e impactos nos LAS, com Júlio Garcia – LASO/MG e Maria Selma – APSEMG. E o Painel 5, Beneficiamento e Armazenamento de Sementes com Dr. Jonas Farias Pinto, Academia da Semente; Ian Jepsen Ely – Oliver; e José Francisco Martins – JF Estratégia e Gestão em Sementes.

Quinta-feira (27)

8h30 às 10h – Painel 6

Patologia de Sementes

Dr. Carlos Utiamada – Pesquisador

Dra. Debora Rocha – Agromen Sementes

Dra. Norimar Denardin – Cebtecagro

Moderador: Dr. Fernando Henning – Embrapa Soja

10h às 11h – Coffee Break e Visita aos Estandes

11h às 12h – Momento Embrapa Soja

Dr. Alexandre Nepomuceno – Embrapa Soja

12h às 13h – Encerramento Oficial e Almoço

14h30 às 16h30 – Visita a Embrapa Soja