set20006

Inventado na crise por argentinos, token paga até cafezinho no Brasil com grãos de soja

Alguns produtores da Argentina e do Brasil estão pagando suas contas com grãos de soja. Não se trata do tradicional escambo, ou barter, em que as sacas da leguminosa são trocadas por insumos, fertilizantes e combustível na revenda agropecuária mais próxima. Os grãos, dessa vez, viraram moeda para pagar qualquer conta na maquininha do cartão de crédito: pode ser o cafezinho da esquina, o corte do cabelo ou abastecimento do carro, até a troca da mobília da casa ou a aquisição de um novo maquinário.

“A necessidade é a mãe de todas as invenções”. É recorrendo ao provérbio popular que o diretor da Agrotoken no Brasil, Anderson Nacaxe, explica por que foi na Argentina, e não em outro país, que surgiu o conceito de transformar a soja em indexador do dinheiro dos agricultores, fugindo às variações do dólar, peso ou real. Os tokens, na prática, são garantidos pelas grandes tradings de grãos, como Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus, que, autorizadas pelos produtores, fazem cessão de crédito para a Agrotoken – plataforma que funciona como uma câmara de compensação das transações.

Gazeta do Povo: Para entender o agrotoken, vamos pegar uma safra que ainda será colhida. Supondo que o produtor vai colher 100 toneladas de soja. Quando ele tokeniza isso? Como é o processo?

Anderson Nacaxe: A gente tem a tokenização tanto desde o pós-colheita quanto também do pós-plantio. Eu posso considerar um grão entregue como lastro do token, ou seja, um grão colhido e já entregue numa cooperativa, num armazém, e posso considerar também o grão que está em produção na lavoura, que já tenha sido plantado.

A gente usa métodos para chamar de prova de existência. Ou seja, uma vez que eu comprove que esse grão exista, eu permito a geração de um token em cima dele.

Mas e se a soja que foi plantada sofrer uma frustração de safra. Como isso é amarrado?

O que a gente garante é que o token é sempre líquido. No caso de grãos que estão em produção, qualquer risco associado ao plantio ou climático, ou até mesmo a performance, que é a parte dele entregar ou não, a gente tem coberto por outros agentes da cadeia.

A Agrotoken junta vários agentes diferentes. Por exemplo, se um banco quer dar crédito para um produtor com um grão que está em produção, eu exijo que alguém tome o risco-colheita desse produtor. Se o próprio banco aceita esse risco, ele é quem está tomando o risco. Se existe uma seguradora, é a seguradora que assumiu esse risco. É importante ressaltar que quem vê um token pronto, já assume que não existe risco de colheita ali.

Que outras operações já foram feitas com token, além da compra de um trator da CNH no Show Rural, em Cascavel, no início do ano?

A gente já conseguiu fazer 240 mil toneladas entre soja, milho e trigo, no Brasil e na Argentina. Aqui no Brasil a gente está começando um pouco mais forte agora, deve estar chegando aí a 38 mil toneladas. Estamos começando, é embrionário ainda. Foi oficialmente lançada a solução na feira. O volume anterior tinha sido volumes de operações pontuais, para testar o modelo, para provar o conceito. Essa operação do trator foi a primeira operação de fato, estruturada, feita com 100% de produção, no Brasil.

Em relação à forma tradicional de o produtor fazer compras, o que a moeda-soja aposenta?

A gente faz um modelo que é como se eu desse uma moeda para uma economia que já existisse, mas nunca teve moeda. Eu gosto de ver os tokens como uma forma de a economia agrícola criar sua própria moeda, não depender de moedas de governo. Quando um produtor produz soja e precisa converter para reais, ele assume o risco associado ao governo brasileiro. Então ele passa a estar sujeito a variação cambial e qualquer efeito de juros sobre essa moeda, real. Quando tem que converter para dólar, ele toma risco do governo americano e todas as macro variáveis que influenciam essa moeda.

Se eu te falar uma moeda-soja, estou deixando o produtor protegido. Hoje ele não tem ferramenta para trabalhar somente na economia soja. É obrigado o tempo todo a ficar convertendo para as economias tradicionais e moedas de governo. Uma grande vantagem que a gente trouxe foi criar essa moeda em que ele possa transitar sem tomar risco de preço, sem tomar risco de juros diferentes.

Token funciona como um cofre digital em soja

O produtor que faz arrendamento em sacos de soja, ele vai conseguir pagar alguém de fato com soja, sem ter que transportar o caminhão.

Se quiser pagar os funcionários das fazendas ou a viagem da família dele para Disney em soja, também vai conseguir. Porque eu não só permito a transação do valor da soja dele por meio de um ativo digital, como também materializo essa transação por meio de pagamentos tradicionais, como um cartão de crédito. A partir do momento em que ele tokeniza a fazenda dele, é como se ele tivesse criado um cofre na fazenda, que passa a ser a conta corrente dele. E pode fazer todas as transações nessa moeda, que é a economia dele, e se conectar com as outras economias globais, usando esses outros instrumentos financeiros, como um cartão de crédito, uma transferência direta bancária.

É como se agora a conta corrente fosse a fazenda, e o banco que está gerindo isso aí para ele fosse o comprador de grão. E isso tudo acontece fora do sistema financeiro tradicional. E aí ele não é mais refém do sistema financeiro tradicional.

Se ele quiser vender parte dessa produção dele para você, por exemplo, que quer investir num produtor e comprar 100 sacas de soja, você vai conseguir. Não depende mais de fazer um CRA, fazer uma operação estruturada na bolsa, ou criar um Fiagro, criar uma letra de crédito agrícola. O fato de ele já ter essa transação tokenizada vai permitir a integração pura da economia com a cidade. E daí pessoas físicas como nós, poderiam comprar soja.

Você deu exemplo da pessoa física que quer investir em sacas de soja. Quem garante que isso tem lastro?

A função da Agrotoken nesse processo é garantir esse lastro. Eu não sou emissor desse ativo. Imagine um produtor lá de Sorriso, no Mato Grosso, que tem uma área de soja e procura a Agrotoken. Ele vai usar nossa infraestrutura para emitir um token da soja. Esse token tem que atender a critérios. Então, primeiro a Agrotoken valida se a área é uma área legal, se tem autorização para explorar a terra, se é um produtor que atende a critérios de governança que a gente busca. Em cima disso, eu permito que ele entre no meu ecossistema.

No que ele gerar os tokens, eu já verifiquei que a soja existe e que foi vendida, por exemplo, para uma grande trading, como a Bunge. E tem uma cessão de crédito em favor da Agrotoken. Ou seja, o produtor tem soja, já vendeu para a Bunge, e quando entregar, o pagamento dessa soja vem para a Agrotoken, que, por meio do token, repassa os direitos creditórios dessa cessão para quem estiver com o token na mão.

Então, no momento zero, quem tem o token na mão é o próprio produtor. Ou seja, ele me dá os direitos creditórios para a soja, e eu devolvo para ele por meio de tokens. E eu garanto e monitoro esse processo o tempo todo. Eu não estou assumindo o risco. Quem garante a parte econômica do processo são os compradores de grãos.

O risco sistêmico do nosso processo mora nos compradores de grãos. Como a gente trabalha com compradores de grãos de primeira linha, o risco desse sistema acaba sendo Cargill, Bunge, ADM, Dreyfuss, que é relativamente muito baixo.

Eu não apresento risco para o processo, porque eu sou a infraestrutura. E como faço tudo em blockchain, é tudo transparente também. Então não há risco de desvio desse valor. Eu atuo como uma câmara de compensação, consigo garantir para quem está recebendo o token que o processo está sólido, e que tem um comprador que atendeu critérios, e que o operador desse token, que foi o produtor rural, também atendeu critérios.

O preço de quem tem o token na mão acompanha a cotação do dia da soja?

Esse é o ponto mais importante, ele tem preço comum. Um token gerado em Sorriso (MT) ou em Passo Fundo (RS) vai ter valor igual contra referência de preço físico de Sorriso. A gente elegeu uma praça que é bem líquida, bem representativa, porque ela sofre um efeito de frete forte, então a gente consegue capturar variações por conta de preços de frete. E ela sofre também efeitos do escoamento pelo Norte e pelo Sul do Brasil, além de abastecer as fábricas internas.

Se houver vários produtores querendo vender tokens para pessoas físicas, no futuro, quando a gente habilitar isso, não influenciará o preço do token, que é sempre o preço da soja física. Por que ele existe para ajudar o ecossistema agrícola, não é para investidor ganhar dinheiro na especulação. Ele pode usar o token para se proteger da inflação, comprar barato para vender num momento mais caro. Mas não vai ser por conta de oferta e demanda do token, mas por oferta e demanda da soja.

O fato de ter surgido na Argentina já explica um tanto de toda essa engenhosidade…

Eu acho que a Argentina foi o turbo do processo. A necessidade é a mãe de todas as invenções. Na primeira vez que tive contato com a ideia do token, eu era diretor de commodities da Corteva, e o pessoal falava em tokenizar uma CPR. Tudo bem, você iria digitalizar uma CPR, mas depois voltaria a ser uma CPR.

Na Argentina, no que chegou essa ideia lá, eles colocaram uma camada a mais. Digitalizar a soja não tem valor, porém, se eu digitalizar a soja e criar um ativo fungível, terá muito valor, porque daí o produtor pode usar como moeda, e uma moeda soja vai ter mais valor que pesos. Essa sacada aconteceu lá.

Aqui no Brasil, como a gente estava muito acostumado com a visão de que a soja já era líquida, não conseguimos ver essa oportunidade do que seria ter uma soja com preço único no Brasil inteiro. Nasceu lá, por conta da necessidade, e trazendo para cá, a gente consegue ver o valor que é isso. Significa que o Magazine Luiza pode anunciar uma TV com preço único em soja para qualquer lugar do Brasil. A Hilux poderá ser vendida com preços em saco de soja, acompanhando esse índice, porque ele é uma moeda dessa economia agrícola. E só é uma moeda porque ela é fungível. Então, a sacada de fungibilidade nasceu na Argentina, por conta da necessidade que eles tinham de ter uma moeda representativa.

A gente tem uma parceria global com a Visa. Inclusive estamos participando de projetos ainda mais estruturados com eles. Já lançamos soluções em cartões internacionais lastreados em ativos de commodity. Ou seja, o produtor que tokeniza trigo, soja ou milho consegue abastecer um cartão Visa com créditos vindos desses tokens para usar em qualquer lugar do mundo.

E isso é imediato, se ele compra um café, um hambúrguer, onde ele for, essa loja recebe dinheiro no momento zero. Por que a Agrotoken criou um ecossistema com meios de liquidez para esse ativo ser transacionado. Se a pessoa está preocupada, ‘se eu comprar, qual é o risco da colheita?’ Se já virou token, esses riscos já foram mitigados. E isso garante que eu tenho uma liquidez plena que possa abastecer inclusive cartões de crédito e modelos de crédito estruturado de uma forma muito mais fácil.

Isso tem alguma ligação com o sistema financeiro, alguma normatização?

A gente é chamado de token utilitário, porque eu represento um ativo físico e o nosso preço não oscila em função da transação do nosso ativo, ele oscila em função de um índice. Diante disso, eu sou utilitário, estou dentro de uma norma da CBM, que permite que ele possa ser usado em transações comerciais, sem taxação de uma criptomoeda, por exemplo. Uma criptomoeda, por ter volatilidade própria, ela acaba tendo uma regulação diferente. No nosso caso, eu sou um token utilitário, sou amparado praticamente pelas mesmas leis da CPR, sou um lastro igual à CPR, eu sou um recebível.

Quais tradings já estão trabalhando com vocês?

A gente já atua com todas as tradings no Brasil, porque aqui no Brasil a gente consegue usar cessão de créditos independente de ter uma parceria formal com a trading. Mas a gente já está para anunciar três parcerias com grandes tradings, formais, em que elas serão impulsionadoras do negócio. Em teoria, eu não precisaria ter uma parceria formal com elas por causa da lei de cessão de crédito do Brasil. A mesma coisa na Argentina, a gente faz essa parceria para ir no mercado junto.

Pessoas da cidade vão poder investir no token de soja

Como está sendo a recepção dos produtores, que calculam a vida deles em torno do preço da soja?

O que faltava para o produtor? A moeda. Ele já tinha todo o modelo econômico e financeiro em cima da soja. Faltava para ele o meio de troca. Eu passei 17 anos fazendo operações de barter, onde a gente tentava fazer as operações de troca, mas no fim do dia a gente só estava usando como lastro. Isso mostrava que o produtor já tinha uma demanda muito grande de pensar em soja e negociar em soja.

Agora, usando a tecnologia das criptomoedas, a gente criou de fato um ativo que ele possa negociar, que possa usar como meio de pagamento, como reserva de valor, para conectá-lo com um sistema de financiamento descentralizado. E que possivelmente se torne uma nova classe de ativos para investidores em potencial.

Eu gosto muito da ideia de que a gente consegue conectar de fato a cidade ao campo, vou permitir que pessoas físicas como nós, em breve, comprem ativos digitais de produtores.

Um exemplo que gosto de usar: a gente está trabalhando em dois projetos de carne e etanol, onde a gente conseguiria permitir que pessoas físicas da cidade comprassem diretamente ou de um pecuarista ou de uma usina, esse token. E como são cadeias mais curtas, significa que, se eu quisesse ir numa churrascaria e pagar com token, eu conseguiria. Porque a churrascaria poderia pagar esse token para o abatedouro, que está com o boi do pecuarista que já recebeu o dinheiro aqui.

Token de etanol pode estar a caminho

Um exemplo muito prático é de quando as pessoas têm a percepção de que vai subir o preço do combustível. Elas fazem fila no posto. E mesmo que você tenha um aumento de 50 centavos na gasolina, quem tem um carro de 50 litros de tanque, vai economizar no máximo 25 reais no abastecimento. Ele não consegue aproveitar esse preço nos próximos abastecimentos, porque ele está limitado a 50 litros.

Agora, se eu tenho um token de etanol emitido por usinas, poderia comprar dois tanques, três tanques, quatro tanques. Para me proteger de uma eventual alta, se vejo um cenário que vai ter um conflito mais sério no mundo, estou com medo do preço da gasolina, eu já poderia estar comprando um token de etanol agora e isso iria me proteger de uma variação de alta do etanol no futuro. E paralelamente, ao fazer isso, estou investindo no setor primário do país, incentivando a produção de etanol. Então, em vez de ser um consumo que vai gerar inflação, é um consumo que influencia produção, eu antecipo a demanda futura e antecipo o dinheiro para o cara que precisa, que é o produtor rural.

Já tem cartões na mão dos produtores?

Hoje a gente tem duas áreas que receberam esses cartões, eles estão em Silvânia (GO) e Rondonópolis (MT), sendo utilizados por produtores rurais. Vamos começar a produção em massa para atender aos produtores que solicitarem.

É um cartão comum ou ele só vai na loja que aceita o token dele?

É um cartão comum, tradicional, igualzinho o outro. A diferença é que nesse cartão nunca chega a fatura, ele é sempre liquidado com soja. Para as transações nas maquininhas, ele é exatamente igual. Desde que aceite a bandeira Visa.

O que muda é o sistema de liquidação dele, que está por trás, em vez de ele liquidar isso contra dinheiro em banco, ele liquida isso contra soja na lavoura.

Fonte: Gazeta do Povo/Marcos Tosi Foto: Michel Willian/Arquivo/Gazeta do Povo

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