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Um trabalho exemplar para a humanidade

Pela primeira vez na história do Prêmio Mundial de Alimentação – World Food Prize (WFP) –, reconhecido como o “Nobel” da agricultura, tem uma brasileira laureada. Quem recebe tal honraria é a cientista Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, reconhecida por sua relevante contribuição ao desenvolvimento de insumos biológicos para a agricultura.

O prêmio reconhece anualmente as personalidades que contribuem para o aprimoramento da qualidade e da disponibilidade de alimentos no mundo e é tido também como o “Nobel” da agricultura e alimentação, porque essa modalidade não é contemplada nas categorias oficiais do Nobel. “Desde que eu me entendo por gente, queria ser cientista, pesquisadora, microbiologista. Contudo, esse é um prêmio de todas as pessoas que trabalham junto comigo; da Embrapa Soja, que acreditou no propósito e investiu, e também representa a força da mulher no imprescindível papel da segurança alimentar da humanidade”, disse Mariangela em entrevista aos jornalistas Denise Morini, da Revista Paraná Cooperativo e Everson Mizga, da Revista Apasem, no final do mês de julho. Confira abaixo os principais trechos dessa conversa.

Revista Apasem: O que significa, para a senhora, ser hoje uma das personalidades que contribuem para o aprimoramento da qualidade e da disponibilidade de alimentos no mundo, critério que o “Nobel” da agricultura leva em consideração ao eleger os seus laureados?

Mariangela Hungria: Realmente, jamais… jamais mesmo eu poderia imaginar essa indicação. Isso porque é algo muito concorrido com profissionais de renome do mundo todo, ainda mais para nós, brasileiros, que vemos cada vez mais os investimentos em pesquisas minguarem. Em 40 anos de atuação, posso afirmar que nunca vi um período tão ruim para investimentos públicos em pesquisa e olha que já passei por muitas dificuldades, mas parece que agora é ainda mais profundo e sem recursos, a gente não consegue avançar a contento. Está muito difícil fazer pesquisa em nosso país. Na contramão, outros países deslancham cada vez mais. A China, por exemplo, já está com mais do que o dobro de pesquisa de trabalho, se comparada aos Estados Unidos, porque investe em torno de 4% do PIB em ciência, tecnologia e inovação. E nós, aqui, não chegamos nem a 0,5% ou 0,6%, o que é uma pena, porque somos um país com muita gente boa, treinada, capacitada, mas, sem recursos, desperdiçamos esses talentos. Devido a esse cenário, quando falaram meu nome, de fato, não consegui acreditar, assimilei aos poucos e vejo que a repercussão disso está sendo muito grande.

RA: O que leva a Dra. Mariangela a esse feito?

MH: Bom, eles não falaram exatamente, até porque os nomes dos julgadores não são divulgados. Mas tenho uma tese que talvez possa esclarecer essa sua pergunta, que também é a minha pergunta. Imagino que tenha sido pela resiliência, perseverança, resistência de um trabalho que se iniciou lá atrás, numa época em que ninguém acreditava nos biológicos, e eu, mesmo com o cenário desfavorável, nunca desviei a atenção do caminho que havia decidido seguir. Anos atrás, acreditava-se que os biológicos poderiam se limitar somente a uma agricultura orgânica, familiar. Busquei quebrar essa mentalidade e provar, por meio da pesquisa, que ele poderia ser para todos os elos da cadeia, da grande à pequena agricultura. E o legal dessa indicação é que não tive nenhum tipo de comentário negativo sobre esse “resultado”. Mesmo em um país polarizado, ambos os lados reconhecem o impacto positivo desse trabalho realizado por meio da pesquisa. Por isso, me sinto até emocionada ao perceber o alcance que ele teve e olha que a minha carreira desabrochou em meio à soja. Mesmo assim, não recebi críticas por isso.

RA: Quarenta anos dedicados à pesquisa. Qual foi o papel da Embrapa Soja em sua carreira e como o seu trabalho contribuiu para o crescimento da instituição?

MH: Já com formação e com uma carreira iniciada, eu também era mãe de duas garotinhas. Uma delas, com necessidades especiais e eu soube que em Londrina havia ótimas escolas e atendimento médico, que não tinha onde eu atuava. Então, eu, que já atuava na Embrapa no Rio de Janeiro, pedi transferência e vim para o Paraná. Foi ali que começou minha relação com a Embrapa Soja. Foi um começo excelente, mas muito difícil, porque tudo estava na estaca zero. Eu não tinha nada, mas acho que a própria dificuldade foi transformada em oportunidade. E pude formar o meu grupo de pesquisa, construir o meu laboratório e, principalmente, colocar em prática tudo aquilo que estudei e que sonhei em ter resultados como pesquisadora. Minha carreira toda foi junto à Embrapa e me sinto grata e feliz por essa troca que rendeu e rende frutos para ambos os lados.

RA: Qual é o efeito prático de seu trabalho para a humanidade: mitigação da fome, aumento da produção de alimentos e agricultura sustentável?

MH: Olhando o efeito prático, posso dar o exemplo da Embrapa Soja. Se não fosse a gente trabalhar firme nesses microrganismos, o mundo poderia sim passar por dificuldades na alimentação de sua população. Na contribuição para a cultura da soja, a gente não seria, com certeza, um dos exemplos mundiais. E eu falo isso sem um pingo de dúvida: não seríamos o maior produtor, exportador, nem sei se a gente conseguiria produzir. Outro ponto é a questão do preço do fertilizante nitrogenado, que é caríssimo, e a gente precisa importar 85%. Sem contar que ele é o mais poluente de todos os nutrientes. A produção de alimentos brasileira gira em torno de 30% a 40% da parte só de segurança alimentar. Tanto que produzimos, hoje, alimentos para quase um bilhão de pessoas. E, recentemente, milhões deixaram de ter insuficiência alimentar grave em nosso país, por exemplo, embora muita gente ainda tenha insuficiência alimentar grave. Acho que são alguns dos fatores diretos e efeitos práticos de nossa pesquisa. Outro exemplo que podemos citar é que a pesquisa impacta muito a vida dos pequenos e médios agricultores. Muito mais do que você pegar um grande agricultor lá de Mato Grosso, por exemplo. Então, aqui a gente pode fazer a diferença não só na alimentação, como também dessas pessoas que veem a produção ser aumentada em hectares, ou mesmo que após a produção da soja seja possível usar o solo para outras culturas. Isso impacta a área financeira e o produtor consegue, assim, ter meios para buscar outros recursos para aperfeiçoar sua lavoura.

RA: A senhora é a primeira mulher brasileira a conquistar esse reconhecimento. O que isso significa para o Brasil de hoje e para o público feminino?

MH: Preciso frisar que eu nunca e jamais conseguiria fazer nada sozinha. E eu falo que quem sobe lá e recebe o prêmio é a Embrapa, uma instituição pública que investiu e acreditou. A Mariangela é a figura que representa essa conquista. Ela representa todo esse grupo de pessoas que ajudaram a chegar até aqui. E quero lá, no dia do prêmio, fazer uma homenagem às mulheres, pois elas são figuras fundamentais na alimentação da humanidade e pouco se reconhece isso na sociedade. Na segurança alimentar e nutricional, são elas que realmente fazem as hortas domésticas comunitárias, que cuidam das plantas medicinais, são a maioria na agricultura familiar, são as merendeiras ou aquelas que passam os saberes de como preparar os alimentos de geração para geração, são as educadoras que vão ajudar a gente a ter uma nova geração que saiba se alimentar nutricionalmente e por aí vai. Somos nós, agrônomas, extensionistas e pesquisadoras. Ainda trazendo para o ambiente familiar, temos a nostalgia das receitas nutritivas de nossas avós, ou do carinho imenso de nossas mães ao preparar o alimento. Logo será realmente uma oportunidade de jogar luz nesse lindo papel da mulher na segurança alimentar. Sinto-me honrada em representar o público feminino e, de certa forma, passar essa mensagem de valorização desses belos trabalhos que todas nós fazemos ao desempenhar esses papéis na sociedade, que muitas vezes são invisíveis. Enfim, tudo isso! Quero, por meio desse prêmio, reconhecer o papel fundamental da mulher no imprescindível tema da segurança alimentar da humanidade.

RA: Como vê o setor de sementes dentro desse contexto da agricultura contemporânea?

MH: É imprescindível para uma boa agricultura. E por isso tenho uma preocupação: no setor público, a gente sempre se dedicou e levou em consideração a sustentabilidade de toda essa parte de microrganismos; isso requer que se faça o melhoramento das plantas na presença dos microrganismos – diferente do melhoramento da presença de químicos. Então, os cientistas acabam por não acompanhar porque esse processo está no setor privado. Gostaria de deixar essa mensagem, que isso deve ser considerado – e levado em conta –, senão o que que vai acontecer? A soja, por exemplo, pode vir a não mais responder aos biológicos e sim aos químicos. A qualidade das sementes produzidas e que chega ao agricultor é extremamente importante para todos. Por quê? Porque se não chega a semente de qualidade, começa-se a usar mais agroquímicos, fungicidas, inseticidas, e isso atrapalha os biológicos, porque eles matam também os microrganismos do bem. Não são só as daninhas. Ele não sabe matar só o mal, né? Então, para nós também – quanto mais sadia a semente, quanto melhor o vigor, melhor será todo o processo, pois usam-se menos agroquímicos.

Por Everson Mizga – Reportagem Publicada na Revista Apasem ed. 2025 – Fotos: Arquivo Embrapa Soja

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