FL - Consulta pública põe segurança da soja sob ameaça

FL - Consulta pública põe segurança da soja sob ameaça

09 de outubro, 2018

A soja representa 24% do VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária) do Paraná. Na última safra foram colhidas 19 milhões de toneladas do grão e o faturamento com a oleaginosa somou R$ 20,3 bilhões. Com estes números astronômicos é natural que o setor agrícola busque cada vez mais rentabilidade com a cultura. Também é natural que se busque preservar as condições fitossanitárias no campo, evitando o aparecimento e a proliferação de pragas, especialmente a ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi).

'Para os produtores, enquanto tiver um fungicida funcionando a ferrugem não é encarada como um problema, mas pode chegar uma hora que a gente não tenha mais nenhum fungicida funcionando. E aí, como vamos produzir soja?', questiona a pesquisadora Cláudia Godoy.

Com esse intuito vigora no Estado, desde 2008, o período de vazio sanitário de 10 de junho a 10 de setembro, durante o qual fica proibido manter plantas vivas nas lavouras. A janela de semeadura veio reforçar esse controle. Fixada pela Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná) em 2016, ela limita até 31 de dezembro o plantio do grão e, com isso, diminui o risco de proliferação da ferrugem, que só sobrevive em plantas vivas. Porém, uma consulta pública aberta neste mês pela própria Adapar pode retroceder este cenário.

O objeto da consulta pública é a Portaria n.264/2018, que, dentre outras medidas, possibilita o plantio da soja para além do prazo "para qualquer finalidade", retomando a possibilidade de termos uma "safrinha". Até o ano passado este plantio extemporâneo era permitido somente para fins de pesquisa. Marcílio Araújo, gerente de sanidade vegetal da Adapar, explica que a consulta surgiu de questionamentos de produtores especialmente da região Sudoeste, que faz divisa com Santa Catarina, onde o plantio da soja é permitido até fevereiro.

"Às vezes o produtor tem propriedades nos dois estados e é um inconveniente muito grande administrar", destaca. Questionado sobre os riscos de proliferação da ferrugem com o aumento da janela de semeadura, uma vez que o fungo se prolifera com o vento, Araújo diz que o clima mais frio no Sul do Estado não diminuiu os riscos da doença.

"Não necessariamente o risco de ferrugem é menor, porque uma vez que pegar o inóculo a ferrugem vai se disseminar por essas plantações mais tardias", afirma. Para que haja consenso em torno do tema, Araújo aguarda a contribuição de entidades técnicas e de pesquisa na consulta, que segue aberta até 2 de novembro. Porém, para ele, o ideal seria uma norma nacional que determinasse as datas.

Retrocesso

A pesquisadora da Embrapa Soja, Cláudia Vieira Godoy, considera um retrocesso a ampliação da janela de cultivo da soja caso a Portaria n.264 seja aprovada nos termos propostos. Ela assina, ao lado de outros cinco pesquisadores, nota técnica divulgada pela instituição na qual alerta para os riscos dessa flexibilização, já que o vazio sanitário e a calendarização do plantio são medidas que têm funcionado no combate à ferrugem da soja. Como agravante, Cláudia destaca a resistência desenvolvida pelo fungo aos fungicidas existentes no mercado. O plantio da safrinha, com consequente aumento no número de aplicações de fungicidas, pode levar à ineficiência de todos os modos de ação disponíveis.

"Esse calendário de semeadura foi feito para a gente conseguir reduzir o número de aplicações de fungicida na safra porque, quanto mais você aplica, mais você seleciona a resistência do fungo, e a gente vem perdendo vários em função disso. Temos que atrasar esse processo", explica. Em maior ou menor nível, o fungo da ferrugem já apresenta mutações para os três principais modos de ação sítio-específicos usados no Brasil: triazóis, estrobilurinas e carboxamidas. Por outro lado, o registro de novos produtos pode demorar até cinco anos.

"Quando a gente testa um produto com 80% de eficiência, até ele entrar no mercado a eficiência já caiu para 20%, porque o fungo sofreu tanta mutação em cinco anos que já desenvolveu resistência", explica Cláudia. A pesquisadora entende que os produtores tenham mais dificuldade em enxergar o cenário a longo prazo, por isso, cabe às instituições técnicas e de pesquisa fazerem o alerta.
"Para os produtores, enquanto tiver um fungicida funcionando a ferrugem não é encarada como um problema, mas pode chegar uma hora que a gente não tenha mais nenhum fungicida funcionando. E aí, como vamos produzir soja?", questiona.

Fonte: Folha de Londrina/ Cecília França Foto: Saulo Ohara

 

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