Década da transformação no campo

Década da transformação no campo

23 de fevereiro, 2021

Dez anos podem parecer muito, mas passam num piscar de olhos quando se trata de um mercado tão competitivo como o agronegócio. Por isso, acompanhar as tendências para o segmento se torna essencial para a obtenção dos melhores resultados. Na próxima década, a cadeia produtiva, incluindo o setor de sementes, deve passar por uma grande transformação. Ela está ligada não só à biotecnologia, mas também à transformação digital e novos modelos produtivos e de negócios.

Um estudo realizado em parceria pela Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (ABRASS) e pela Basf, com o auxílio da consultoria Blink Projetos Estratégicos, identificou para os próximos dez anos essas macrotendências, divididas em três grupos: insumos e indústria; produção e transformação digital; e oferta versus demanda.

“Estamos em uma era de profundas mudanças tecnológicas e no ambiente de negócio. Um setor forte depende de empresas adaptadas ao futuro”, revela Tiago Fonseca, presidente da ABRASS, sobre o motivo de promoção do levantamento. De acordo com ele, a entidade tem o objetivo de abastecer os associados com informações relevantes, buscando apoiá-los nas decisões e na preparação para os próximos cenários.

Transformação digital e o agronegócio

Uma das macrotendências mais significativas apresentadas no trabalho é a transformação digital. De acordo com Lars Schobinger, sócio-diretor da consultoria Blink, nos próximos dez anos, uma gama de serviços, produtos e plataformas será introduzida no mercado agrícola, alterando, inclusive, a forma de manejo das culturas. “Isso vai otimizar muitos recursos e exigir cada vez mais mão de obra qualificada no campo, o que se transformará em um dos desafios nos próximos dez anos”, afirma.

A tecnologia já está presente no campo, mas o processo de transformação digital se tornará ainda mais intenso com a chamada Internet das Coisas (Iot) e outras ferramentas, fazendo com que o agronegócio entre definitivamente na era “4.0”. “O produtor estará cada vez mais preocupado não apenas com a produtividade, mas também com a rentabilidade do negócio. E isso será impactado diretamente nos próximos dez anos pela transformação digital”, indica Schobinger.

O presidente executivo da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (ABRASEM), José Américo Pierre Rodrigues, também aposta na adoção das novas tecnologias, que formam a Agricultura 4.0, como uma das direções para os próximos anos.

A transformação digital vai colocar o Brasil em uma posição de ainda mais destaque no agronegócio mundial, fortalecendo a sua competitividade perante mercados que já possuem plataformas bastante avançadas nesse sentido.

“É ferramenta importante e será cada vez mais essencial para termos um agronegócio competitivo. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) foi aprovada recentemente e é um marco significativo para essas tecnologias e outras que virão. Mas ainda temos problemas estruturais, como a conectividade. Nem todas as áreas são cobertas ou mesmo com qualidade. Temos que dar atenção a isso”, considera.

A operadora TIM, líder de cobertura 4G no país e também no mercado do agronegócio, com mais de 5 milhões de hectares conectados, anunciou recentemente o primeiro Marketplace IoT do Brasil. O espaço permite acesso a soluções de Internet das Coisas que complementam os serviços de conectividade voltados para diferentes setores, incluindo o agronegócio. Dessa forma, de um único ponto é possível conectar escritórios, fazendas, máquinas, otimizar a gestão de equipe, monitorar lavouras e acompanhar, em tempo real, o transporte de mercadorias tanto para centros de distribuição quanto para o cliente final.

“Com essa iniciativa, o produtor rural poderá integrar soluções que ajudarão a incrementar seu negócio, otimizando tempo e recursos, além de incentivar o aumento de produção com a tecnologia da plataforma de Internet das Coisas pensada e desenvolvida pela TIM para o campo”, explica Paulo Humberto Gouvea, head de Soluções Corporativas da TIM Brasil.

Segundo a operadora, a estimativa é que, até o final de 2021, a cobertura de 4G no campo chegue a 13 milhões de hectares em todo o país. A empresa destaca ainda que vem acompanhando essa tendência de rápida expansão do agronegócio e está investindo em iniciativas e inovações que possam aumentar a produtividade do setor. A TIM é, por exemplo, cofundadora da iniciativa ConectarAGRO, uma parceria com outras sete grandes empresas que são referências – cada uma no seu campo de atuação –, com a missão de levar conectividade para todo campo brasileiro. Participa, ainda, do desenvolvimento de estratégias e parcerias com hubs de negócio, startups para desenvolver soluções de digitalização e automação no agronegócio.

Segundo o estudo desenvolvido pela ABRASS e pela Basf, a transformação digital também vai pautar a relação com o comprador. Uma das tendências levantadas mostra essa conexão. “Cada vez mais, o consumidor estará informado e vai acompanhar o que é, como, quando e onde é produzido. Isso vai impactar a cadeia produtiva”, explica Schobinger.

As consequências disso vão desde a alteração da forma de produzir, com maior adoção dos chamados produtos de denominação de origem, até investimentos em rastreabilidade.

Outra macrotendência citada no estudo é a posição cada vez mais relevante do Brasil e da América Latina como fontes sustentáveis de alimentos para abastecer todo o mundo, como uma grande plataforma exportadora.

O país já possui uma relação sólida com a China nesse sentido, mas deve existir um crescimento em relação a outros países asiáticos.

Transformação de modelos

A transformação do produtor também está na lista de macrotendências. Ele deixará o perfil técnico e o foco apenas dentro da propriedade para se tornar um grande gestor, trabalhando a propriedade de forma mais estruturada, com uma visão de longo prazo.
Isso será essencial, por exemplo, para encarar outra tendência apontada no estudo: expectativa de surgimento de novos problemas de resistência. “Essa situação deve se intensificar nos próximos dez anos, incluindo a resistência a ativos químicos, principalmente, e também introdução de pragas exógenas. Isso vai exigir muito do produtor”, avalia Schobinger.

Paralelamente, conforme o estudo de tendências para 2030, a indústria do agronegócio passará por uma mudança no modelo de negócios, com uma preocupação cada vez maior de ofertar serviços aos clientes, e não apenas produtos.

“Conforme vai amadurecendo, toda a cadeia econômica aumenta a oferta de serviços. E a cadeia do agronegócio também vai acelerar nesse sentido nos próximos dez anos.

Com isso, haverá de certa forma uma reinvenção do modelo de negócios, cada vez mais com a preocupação em ofertar serviços aos clientes”, conta o diretor da consultoria Blink.

A área de insumos também passa por transformações nesse período, em busca de inovação. “Na década, haverá uma aceleração em soluções biológicas e biotecnológicas. No setor de sementes, por exemplo, isso não é novo, mas virá ainda mais inovação”, enfatiza Schobinger.

Sementes, papel ainda mais fundamental

Segundo o consultor, a importância da semente como veículo de tecnologia ficará ainda mais evidente e já vem sendo percebida pelos grandes players da cadeia, indústria e empresas.

“A semente será cada vez mais importante no processo produtivo, uma ferramenta de diferenciação das empresas e uma das principais peças – se não a principal – do sucesso do produtor. Ela será ainda mais um ponto de convergência de tecnologia e isso passará a exigir ainda mais cuidado de preparo no plantio.

E quanto mais tecnologia embarcada na semente, será necessário mais investimento em outras ferramentas para que esse potencial floresça no campo. Muito da inovação de manejo nos próximos anos será ligada às sementes”, frisa Schobinger. “Tanto no germoplasma quanto em biotecnologia, nos próximos dez anos serão muitas soluções que vão ajudar a elevar e muito a produtividade média da cultura da soja no Brasil”, analisa.

Para Tiago Fonseca, presidente da ABRASS, também chama atenção o papel mais relevante do germoplasma e da biotecnologia embarcada nas sementes. “O sucesso do agricultor no futuro dependerá ainda mais da qualidade e tecnologia do nosso produto”, declara.

Desafios e acompanhamento

Com as macrotendências delineadas, surgem os desafios. Fonseca destaca que a ABRASS vem dando especial atenção ao movimento de mercado, investindo de forma crescente em pesquisa, inteligência e estratégia, de forma a “monitorar os movimentos presentes e futuros e apoiar nossos associados”. José Américo Rodrigues, presidente da ABRASEM, também reforça a importância da representação institucional neste momento, sendo fundamental para atingir esses objetivos. A união de esforços vai impactar, por exemplo, na discussão de marcos regulatórios importantes para o mercado de sementes, tanto o que regula todo o processo de produção até o comércio quanto o de proteção aos direitos de propriedade intelectual.

“Para a área de sementes, investe-se muito em pesquisa. E pesquisa é caro de se fazer. É fundamental que o Brasil tenha um marco regulatório que possibilite segurança jurídica visando retorno dos investimentos em pesquisa, para que possamos colocar à disposição dos agricultores novas tecnologias”, analisa.

Fonte: Revista APASEM, Joyce Carvalho Fotos: Arquivo BASF

 

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